sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O mundo superlotado

Os recordes sucedem-se, de forma implacável. Fim da tarde de 24 de janeiro de 2008: a cidade de São Paulo tem 182 quilômetros de conges¬tionamento - 30 quilômetros a mais que o recorde anterior, registrado dez dias antes. 11 de março, 8h30:183 quilômetros de carros entopem as principais vias da cidade. 10 de maio, 19h30: paulistanos enfrentam 266 quilômetros de trânsito parado. Motoristas e passageiros cada vez mais tempo presos nos carros, irritados, atrasados, perdendo compromissos.
Estima-se que os engarrafamentos cau¬sem prejuízos da ordem de 52 bilhões de reais a cada ano - o equivalente a 20% do Produto Interno Bruto da cidade - com o desperdício de combustível, o desgaste de peças dos automóveis e, principalmen¬te, o consumo de horas que deveriam ser destinadas ao trabalho e produção. Transporte público ineficiente e falta de investimento estão na raiz do problema, mas o fato é que São Paulo tem carros demais porque tem gente demais vivendo e trabalhando na cidade.
Segundo o Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran), a frota de automóveis, motos, ônibus e caminhões licenciados na capital atingiu, no fim de fevereiro, a marca de 6 milhões. Estima-se que, nos horários de pico, 4 milhões de pes¬soas circulem - ou tentam circular - pelas ruas paulistanas. O número de motoristas também cresce vertiginosamente: o Detran emite, a cada ano, 100 mil carteiras de ha¬bilitação, só na capital.
Engenheiros de trânsito e urbanistas calculam que, se nada for feito, São Paulo travará em cinco anos. Embora em escala menor, outras capitais, como Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, também vivem um nó górdio no trânsito. Esse é só um dos problemas causados pelo crescimento acele¬rado e desordenado das cidades brasileiras, que incham ano após ano.
Urbanização à brasileira

Entenda-se bem: urbanização não é sinônimo de crescimento das cidades. O termo descreve o aumento da proporção da população que mora nas cidades em relação à parcela que vive em zonas rurais. Em algumas (relativamente raras) cir¬cunstâncias, a urbanização de uma região pode ocorrer sem que haja crescimento real nas cidades - por exemplo, no caso de uma epidemia que provoque grande mortandade no campo. Mas não é isso o que ocorre normalmente. No geral, a desproporção é causada pelo êxodo rural - as pessoas deixam o campo em busca de melhores condições de vida na cidade.
Como regra, a urbanização é efeito dire¬to da industrialização de uma sociedade. No Brasil, os dois fenômenos dão uma gui¬nada efetiva a partir de meados do século XX. Até o Censo de 1940, apenas um terço dos brasileiros vivia nas cidades. Nas dé¬cadas seguintes, o crescimento industrial e a integração do território nacional por meio das rodovias e das telecomunicações transferem cada vez mais moradores dos campos para as cidades. Nos anos 1980, todas as regiões brasileiras já possuíam a maioria dos habitantes em centros ur-banos. Hoje, o país está entre as nações mais urbanizadas do mundo.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geo¬grafia e Estatística (IBGE), do total de 55 milhões de domicílios existentes no país, 84,7% estão em zonas urbanas. Esses domi¬cílios reúnem 83,3%da população brasileira. A região mais urbanizada é a Sudeste, par¬ticularmente os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Nesses estados se encontram duas das maiores regiões metropolitanas do planeta. São Paulo, com 18,8 milhões de habitantes, ocupa a quinta posição no ranking mundial da Organização das Nações Unidas (ONU). Ali se encontra mais de 10% da população do país, que é responsável por 25% do Produto Interno Bruto nacional. O Rio de Janeiro, a segunda metrópole brasi¬leira, com 11,7 milhões de habitantes, ocupa a 14a posição mundial.

Regiões metropolitanas

Efeito direto da urbanização, as regiões metropolitanas são criadas pela expansão da periferia, que leva à junção de municípios numa única mancha urbana. O Brasil tem 31 regiões metropolitanas, que reúnem mais de um terço dos domicílios urbanos e 30% da população do país. A taxa de crescimento dessas regiões é muito superior à das demais áreas: 2,01% entre 1991 e 2000, contra 1,38% nas regiões não-metropolitanas.
Não é difícil entender por que tanta gente quer morar nas cidades. Em tese, os centros urbanos oferecem maiores oportunidades de trabalho e renda, maior riqueza cultural e melhor qualidade de vida. Acontece que a urbanização brasileira é marcada por desigualdades socioeconômicas - e existe muita miséria nos centros urbanos. Quanto mais baixa a renda mensal por morador da casa, menor é o percentual de casas com saneamento básico: 81,9% dos domicílios com renda per capita acima de cinco salá¬rios mínimos contam com todos os serviços de saneamento, mas, em lares com renda per capita abaixo de meio salário mínimo, essa porcentagem é de 40%.
O déficit habitacional é outro problema causado pela urbanização acelerada. Ao crescerem sem planejamento, as cidades não têm como ofertar moradia a todos os que nela chegam. Segundo o Ministério das Cidades, o Brasil precisa de 7,2 milhões de novas habitações. Quase 40% dessa de¬manda está concentrada nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Como conseqüência dessa carência surgem os assentamentos irregulares, os loteamentos clandestinos, o crescimento das favelas e a ocupação de espaços pú¬blicos, como praças, viadutos e margens de rios - o que também leva ao aumento da poluição. Segundo o IBGE, na última década a população das favelas cresceu num ritmo quatro vezes superior ao do resto da população. A Fundação Getulio Vargas prevê que a população favelada deverá mais do que dobrar em dez anos, atingindo 13,5 milhões de pessoas.

Critérios diferentes

Existem diversas maneiras de contar a população urbana e rural de um país. O critério usado pelo IBGE considera zona urbana toda sede de município e distrito, não importando o tamanho da população nem a densidade demográfica local. Já a Organização para a Cooperação e o Desen¬volvimento (OCDE), órgão que coordena políticas sociais dos 30 países mais ricos do mundo, um núcleo de habitantes só é considerado zona urbana se 85% dessa população viver numa área com densidade demográfica superior a 150 habitantes por quilômetro quadrado. Ou seja, enquanto a OCDE adota um critério puramente demográfico, a contagem no Brasil leva em conta aspectos administrativos.
O sistema brasileiro produz algumas distorções. Um relatório divulgado em 2006 pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostrou que ape¬nas 0,25% dos 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro é efetiva¬mente urbanizado - uma área equivalente à do estado de Sergipe. Ou seja, o Brasil é mais rural do que se afirma. É importante notar que cabe às prefeituras definir ofi¬cialmente as áreas urbanas ou rurais. Como os impostos dos imóveis urbanos são mais altos, é comum a prática de inchar as áreas urbanas para ampliar a arrecadação.

Para saber mais leia: Atualidades vestibular 2009 – Ed. Abril

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