sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Migração

Marroquinos tentam saltar muros de 3 metros de altura nos territórios espanhóis de Ceuta e Melilla. As centenas, africanos apinhados em embarcações improvisa¬das atravessam o mar para alcançar solo europeu - muitos se afogando no meio do caminho. Afeganes sufocam-se em caminhões fechados, na longa viagem da Ásia ao Reino Unido. Na América do Norte, mexicanos tentam varar barreiras e burlar policiais do próprio país para entrar nos Estados Unidos. Todos são imigrantes que deixam o lar em busca de melhores oportunidades de vida em outros países.
Vivemos numa época de grandes ondas de migração internacional. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 3% da população do mundo vive longe do país em que nasceu. O número de imigrantes dobrou nas últi¬mas três décadas e superou o patamar dos 190 milhões em 2005 - todos à procura de oportunidades de trabalho ou em fuga de conflitos armados.

Crescimento vertiginoso

Os fluxos migratórios ocorrem em geral a partir de áreas nas quais a popu¬lação aumenta rapidamente em direção a regiões onde o crescimento demográfico é mais lento. A escalada da imigração da história recente é' um fenômeno sem paralelo por causa do rápido crescimento populacional e do aumento na expectativa de vida. O pla¬neta está cada vez mais cheio de gente., No início do século XX, a população do mundo era de 1,6 bilhão de pessoas. No fim, já éramos 6,1 bilhões, ou seja, quase quatro vezes mais. E continuamos cres¬cendo, a uma taxa anual de 1,2% - cerca de 77 milhões de indivíduos nascem a cada ano. Ao mesmo tempo, a taxa de mortalidade cai. Se no início dos anos 1900 a média da expectativa de vida do planeta estava em torno dos 30 anos, hoje passados 60.
O crescimento populacional concentra-se principalmente nos países menos de-senvolvidos: em 1950, para cada habitante do bloco de países desenvolvidos, havia dois no mundo em desenvolvimento. Hoje, para cada nascimento em nações ricas surgem quatro em países pobres. De acordo com projeções da ONU, até 2050 essa relação será de um para sete. Apenas seis países são responsáveis pela metade do crescimento demográfico da Terra: índia, China, Paquistão, Nigéria, Bangladesh e Indonésia. Tal concentra¬ção cria enorme pressão migratória sobre os países mais desenvolvidos, que tendem a fechar seu território.

UE expulsa imigrantes

E o que está ocorrendo com a União Européia (UE). Em junho de 2008, o Par¬lamento Europeu, que reúne represen¬tantes dos 27 países do bloco econômico, aprovou regras para expulsar imigrantes ilegais, ignorando protestos de ativistas de direitos humanos. A polêmica lei de expulsão de imigrantes - chamada de diretiva de retorno - estabelece a prisão dos ilegais pelo período máximo de 18 meses, além da proibição de retornar ao continente europeu por cinco anos. O Parlamento discute, ainda, outras ações
de política de imigração, como a proposta de impor sanções aos empregadores de imigrantes ilegais e o estabelecimento de condições diferenciadas para entrada e residência de trabalhadores altamente especializados, em detrimento dos imi¬grantes com baixa qualificação.
Notório opositor da imigração na França, o presidente Nicolas Sarkozy tenta fazer o Parlamento da UE aprovar o Pacto Europeu sobre Imigração e Asi¬lo, para promover em todo o território europeu a imigração baseada na seleção de profissionais. A imigração que visa a reagrupar familiares deverá ser fiscali¬zada e inibida pelo maior controle d fronteiras. A União Européia também deverá ter uma política única de asilo. A medida fundamenta-se no fato de que 7,1% dos 190,6 milhões de imigrantes in¬ternacionais são qualificados pela ONU como refugiados. São pessoas que não migram voluntariamente, em busca de emprego, mas são expulsas de seu país em virtude de guerras civis e conflitos étnicos.
Os especialistas afirmam que, ao endu¬recerem a política de imigração, os países europeus ignoram o fato de que necessi¬tam dos imigrantes para crescer. Estudo da ONU estima que a UE precisará, até 2025, de 159 milhões de imigrantes como mão de obra para compensar o aumen¬to do número de aposentados e a baixa taxa de natalidade. Segundo o estudo, entre 1999 e 2000, os estrangeiros foram responsáveis por 89% do crescimento demográfico da Europa.
Muros nas fronteiras

Os europeus querem barrar o fluxo mi¬gratório que parte da África, a maioria pessoas originárias da África Subsaariana. São homens e mulheres com idades que variam de 18 a 30 anos, muitos com nível de educação que ultrapassa o secundário - ar¬tesãos, operários, agricultores, médicos ou engenheiros dispostos a aceitar trabalhos subalternos recusados pelos europeus.
Os enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla, no Marrocos, no norte da África, ga¬nharam importância na rota de passagem para a Europa depois de urna reunião do Conselho Europeu em Sevilha, na Espa¬nha, em 2002. Naquela ocasião, diversos países europeus ameaçaram bloquear os auxílios financeiros aos países africanos de "saída" e de "trânsito" que não ajudassem a combater a imigração clandestina. O objetivo era criar um cordão sanitário em torno da União Européia, transferindo aos países vizinhos, principalmente o Mar¬rocos, a responsabilidade pela repressão aos que emigram ou pedem asilo. A essas nações "de passagem" caberia, assim, o ônus de lidar com situações que envolvem a violação dos direitos humanos.
Em 2004, a UE e seu aliado, o Marrocos, ampliaram as fortificações em Ceuta e Melilla. Em outubro de 2005, centenas de pessoas tentaram pular os dois muros da fronteira em Ceuta, enquanto fugiam das forças marroquinas. A infeliz emprei¬tada terminou com o saldo de 13 mortos e dezenas de feridos. Em decorrência do episódio, o primeiro-ministro socialista da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, mandou construir um terceiro muro de segurança na fronteira, equipado com tecnologia suficiente para barrar a entrada de imigrantes em território espanhol.
As rotas de migração para a Espanha desviaram-se e começaram a partir do litoral do Atlântico, no noroeste da África. Desde 2006, milhares de migrantes tentam realizar a perigosa viagem pelo Atlântico, partindo de Nouadhidou, na Mauritânia, ou de Dacar e Saint Louis, no Senegal.

EUA de portas fechadas

Os muros de Ceuta e Melilla não são os únicos exemplos de fronteiras muradas. Em 2006, o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, descreveu a fron¬teira com o México como "perigosa" porta de entrada de narcotraficantes e anunciou a construção de um muro no lugar da cerca existente entre os dois países. Bush orientou a construção de uma barreira
fortificada, com câmeras infravermelhas, aviões automáticos, que voam sem pilo¬to, e 12,5 mil agentes de fronteira. Uma barreira de 12 quilômetros foi construída na cidade de San Diego, e outras cidades foram protegidas com alambrados.
Segundo o relatório do Banco Mundial de 2006, intitulado Igualdade e Desen¬volvimento, o México é a nação líder em exportação de mão de obra no mundo: apenas no qüinqüênio 1995-2000 foram 2 milhões de imigrantes. Anualmente, a média de imigrantes que se dirigem aos Estados Unidos é de cerca de 500 mil.
A nova barreira endossa a política que faz da questão migratória um assunto de segurança nacional. Em pouco mais de uma década, desde que entrou em vigor a política de dificultar o acesso à fronteira entre os dois países, mais de 4 mil mexica¬nos morreram ao tentar entrar nos Estados Unidos, ou por afogamento, ou por sede e calor, na travessia do deserto.
Além disso, Bush seguiu o exemplo euro¬peu e empurrou a fronteira migratória dos EUA para o sul, transferindo os conflitos para outros territórios. Entre 2000 e 2006, o próprio governo mexicano se encarregou de expulsar do México mais de 1,2 milhão de pessoas vindas da América Central - que estavam no país como última escala antes de entrar nos Estados Unidos.
Europeus já foram imigrantes
O fluxo das migrações internacionais muda de tempos em tempos. Até o século XVIII, os europeus representavam cerca de 18% da população global e viviam em sua terra de origem. Dois séculos depois, na década de 1930, quando o domínio do mundo pela Europa atingiu o auge, os eu¬ropeus correspondiam a 35% da população do planeta e já se encontravam espalhados pelas colônias em vários continentes - África, Américas, Ásia e Oceania.
Nem sempre os europeus deixaram sua terra natal no papel de colonizadores. No período anterior à l Guerra Mundial - entre 1899 e 1913 -, quando se registrou a maior migração em massa da história, quase 15 milhões de pessoas, a maioria de europeus, desembarcaram nos Estados Unidos em busca de melhores oportunidades. O mes¬mo ocorreu em países da América do Sul,
como o Brasil, para onde vieram italianos, alemães, espanhóis e portugueses também em busca de trabalho.
Em meados dos anos 1930, a população européia parou de aumentar. Hoje a taxa de crescimento demográfico chega perto -e, muitas vezes, fica abaixo - dos níveis míni¬mos de reposição populacional, enquanto nos países pobres a população aumenta rapidamente. Essa mudança de padrão inverteu também o sentido dos fluxos migratórios. Com o processo de descoloni¬zação que marcou o fim do domínio impe¬rial europeu sobre o mundo, a população de origem européia que vivia nas colônias ultramarinas começou a se transferir, em massa, de volta ao Velho Continente. Es¬tava estabelecido o sentido de migração das regiões em desenvolvimento para as nações industrializadas da Europa.
Refugiados e deslocados

Nem todas as migrações são voluntá¬rias. Amplos movimentos migratórios são às vezes induzidos por guerras ou convulsões políticas. A ONU criou uma definição e um nome para as multidões de 24,5 milhões de pessoas desgarra¬das que circulam pelo planeta (dados de 2006), mas que não são imigrantes nem refugiados em busca de asilo. São internally displaced persons (IDP), ou pessoas deslocadas internamente.
A expressão é usada para designar grupos
que foram forçados, ou viram-se obrigados, a abandonar sua casa em conseqüência de conflitos armados, violações dos direitos humanos ou desastres (naturais ou fabri¬cados pelo homem), mas que não tenham cruzado uma fronteira entre países. Aque¬les que cruzam fronteiras para escapar de lutas são chamados de refugiados, de acordo com convenção internacional de 1951, ampliada em 1967. Esses represen¬tam 7,1%do total de imigrantes no mundo, ou 13,5 milhões de pessoas.

Para saber mais leia: Atualidades vestibular – editora Abril

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