sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Menos crianças, mais idosos

Onze por cento da população mundial já tem 60 anos ou mais, fenômeno que se deve à queda da taxa de fertilidade e à alta da expectativa de vida.
A humanidade está ficando mais ve¬lha. Neste meio de 2009, a popu¬lação mundial chega a 6,8 bilhões de pessoas. Globalmente, 759 milhões de habitantes, ou 11% desse total, têm idade igual ou acima de 60 anos, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Nos próximos anos, esse número deve crescer cerca de 2,6% ao ano.
Os dados mostram que existe um fenô¬meno de envelhecimento da população do mundo que representa uma tendência para o futuro. Em 1950, só 8% da popula¬ção mundial tinha 60 anos ou mais. Da¬qui a 40 anos, em 2050, serão 22%. Essa mudança tem várias conseqüências. Mas, primeiro, uma pergunta: por que a popu¬lação está cada vez mais velha?

fertilidade e longevidade

A humanidade, considerada no geral, fica mais velha porque a expectativa de vida está se ampliando e a cada dia cai o número de filhos por mulher. Esse último fenômeno demonstra que há um declínio da taxa de fertilidade - média do número de filhos que as mulheres têm durante a vida. A redução da taxa de fertilidade é causada por vários fatores combinados, como o desenvolvi¬mento e a dissemi¬nação de métodos contraceptivos e o aumento da parti¬cipação da mulher no mercado de trabalho, o que lhe tira a disponibili-dade para tarefas domésticas e para a dedicação integral aos cuidados dos filhos. O aumento da urbanização também estabelece um freio às famílias numerosas, pois acaba saindo caro sustentar uma família grande na cidade.
A expectativa de vida é o tempo estimado de existência de uma pessoa nascida em certo ano. Ele é estabelecido com base em pesquisas que mostram quanto as pessoas estão vivendo (isso se chama longevidade) e se esse tempo está aumentando ou dimi¬nuindo. O que contribui para o crescimento da longevidade é a melhoria do acesso da população a serviços de saúde, a campanhas de vacinação, à prevenção de doenças e, no geral, aos avanços da medicina Outro fator é o aumento da escolaridade e do acesso à informação, questões relacionadas direta¬mente à melhoria das condições de vida
Desigualdades

O envelhecimento da população não ocorre simultaneamente em todas as regiões do globo. Já faz certo tempo que é uma realidade nas regiões desenvolvidas, que incluem Europa, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Japão. Nesses países, tomados em conjunto, cerca de 22% da população já atingiu ou passou de 60 anos, e o número de idosos ultrapassou o de crianças abaixo de 15 anos, segundo a ONU.
No entanto, nas regiões mais pobres, a população ainda permanece jovem, com crianças abaixo de 15 anos constituindo 30% da população e os jovens entre 15 e 24 anos, mais 19%. Esses jovens repre¬sentam no mundo 2,8 bilhões de pessoas (1,7 bilhão de crianças e 1,1 bilhão de jovens).
O grande número de crianças e jovens nesses países significa que terá de haver grande esforço, nos próximos anos, de investimentos em educação e na criação de empregos, para absorver a geração que ingressa no mercado de trabalho.
Nos países desenvolvidos, o envelheci¬mento da população trouxe importantes implicações para o conjunto da socieda¬de. A diminuição da faixa da população em idade economicamente ativa (dos 25 aos 59 anos) impõe dificuldades para a reposição populacional, pois, além dessa idade, praticamente não há reprodução. Há diversos países da Europa cuja popu¬lação já estaria diminuindo se não fosse o fluxo de imigrantes vindos de países pobres, sobretudo da África e Ásia.
Outra conseqüência estrutural é o de¬sequilíbrio que pode ocorrer nas contas da previdência pública, já que, pelo sis¬tema tradicional, são as contribuições dos trabalhadores da ativa que pagam os rendimentos dos aposentados.

Transição demográfica

Em relação aos países pobres, é provável que a maioria, no próximo período, viva o declínio da taxa de natalidade e o aumento da longevi¬dade, resultando no envelhecimento gradativo da população. A esse pro¬cesso de mudança no perfil de idade da população de um país dá-se o nome de transição demográfica. Graficamente, significa que a forma da pirâmide que representa a composição etária da população vai ganhando, progressivamente, a forma de uma coluna mais .
Nas regiões menos desenvolvidas, as previsões são de que a taxa de fertilidade caia de 2,73 filhos por mulher (período 2005-2010) para 2,05 (período 2045-2050). E, entre as nações mais pobres - em sua maioria na África Subsaariana -, a queda deve ser ainda maior: de 4,39 crianças por mulher para 2,41- Para as Nações Unidas, essas mudanças estão ocorrendo por causa da expansão dos projetos de planejamento familiar e da ampliação maciça do uso de métodos contraceptivos modernos.
As regiões mais desenvolvidas do pla¬neta tiveram nas últimas décadas uma taxa de fertilidade abaixo de 2,1 filhos por mulher, considerado o mínimo para repor a população a longo prazo (pois considera-se que, para manter a popula¬ção, é necessário que cada casal tenha, em média, dois filhos, e alguns tenham mais, para compensar as crianças que morrem antes de atingir a idade reprodutiva).
Depois de a taxa de fertilidade ter caído bastante, parece agora haver uma reação, em razão da imigração e, provavelmente, no fato de muitos governos de países ricos adotarem medidas para incentivar os casais a ter filhos, como concessão de auxílio financeiro. Assim, entre 45 nações consideradas rias, 34 tiveram aumento nos índices de filhos por mulher. Nelas, a ONU projeta ura crescimento da taxa de fertilidade de 1,64 filho por mulher atual¬mente para 1,8 (período 2045-2050).
No período 2005-2010,25 nações de¬senvolvidas, incluindo Japão e vários paí¬ses do Leste Europeu, registram taxas de fertilidade abaixo de 1,5 filho por mulher. Assim, a população de 45 países deverá encolher entre 2010 e 2050, entre eles Alemanha, Japão, Cuba, Polônia, Coréia do Sul e Federação Russa.

Fertilidade caí no Brasil

O fenômeno do envelhecimento da população também se dá nos países em desenvolvimento, nos quais as taxas de fertilidade caem ano a ano. Os países mais populosos em que o fenômeno está ocorrendo são China, Brasil, Vietnã, Irã, Tailândia e Coréia do Sul.
A última vez em que o Brasil contou sua população pessoa por pessoa foi no Cen¬so de 2000 - os censos ocorrem a cada dez anos: éramos então 169,8 milhões de habitantes. Desde então, a população foi estimada por projeção, com base nas
taxas de crescimento estimadas em 2000. Por essas projeções, seríamos 189,9 mi¬lhões de habitantes em 2007.
Mas, há dois anos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) fe2 uma contagem restrita da população por amostragem (como numa pesqui¬sa de opinião), visitando 30 milhões de lares dos 5.435 municípios brasileiros Descobriu-se, então, que o país contava em 2007 com 183,9 milhões de habitantes 6 milhões a menos do que o indicado na: projeções. A população brasileira havia crescido bem menos do que o esperado.
O motivo é a diminuição da taxa de fer¬tilidade brasileira ano a ano.
No decorrer de sete anos, a partir de 2000, a taxa de fertilidade no Brasil caiu de 2,3 para 2 filhos por mulher, nível abaixo da taxa de reposição populacional a longo prazo. Isso resultou num cresci¬mento populacional de apenas 1,21% ao ano, em média, nesse período. O fenôme¬no não é novo: a queda está ocorrendo desde a década de 1960. Até 1990, a taxa havia despencado vertiginosamente, de 6,3 para 2,9. A partir de então, baixou mais suavemente, mas ainda é considerada acelerada para especialistas. Se a ten¬dência persistir, a população brasileira poderá diminuir a partir de 2060.

Vida mais longa

Segundo o estudo Tábua de Mortalida¬de 2006, do IBGE, a expectativa de vida do brasileiro vem aumentando. As crianças nascidas em 2006 devem viver, em média, 72,3 anos. Com relação a 1960, o ganho foi de quase 18 anos - um aumento de 32,4% (veja o gráfico na página ao lado).
A base da pirâmide etária do Brasil mudou indicando sinais de envelhecimento para a sociedade brasileira. Segundo o IBGE, o número de crianças de até 14 anos de idade equivale a pouco mais de 25% da população. Em 1996, era quase 30%. No extremo oposto da pirâmide, a popula¬ção de idosos com 70 anos ou mais vem aumentando. Em 2006, equivalia a 4,6%. As projeções indicam que até 2050 essa proporção deve subir para mais de 13%. O Brasil acompanha o ritmo de envelhe¬cimento do mundo.
A tendência indica uma melhoria na qualidade de vida, mas preocupa porque há cada vez menos jovens para sustentar um número cada vez maior de idosos. O envelhecimento populacional obriga a pensar no equilíbrio das contas da Pre¬vidência Social, responsável pelo paga¬mento das aposentadorias. No Brasil, o valor de quem se aposentou é pago com o desconto nos salários de quem trabalha. Então, como garantir aposentadoria e pensão a uma grande população de idosos se há cada vez menos jovens entrando no mercado de trabalho?
Por outro lado, mantendo-se saudá¬veis, os idosos estão trabalhando até uma idade cada vez mais avançada. Entre a população acima de 60 anos, 30,9% mantinham-se ativos no mercado de trabalho no Brasil, em 2006. Continu¬avam em atividade, apesar de aposen-tados, 19%. Os idosos acima de 60 anos representavam, naquele ano, 4,5% do total da força de trabalho brasileira - uma proporção considerável.

Países europeus dependem de imigrantes

Nas regiões mais desenvolvidas do pla¬neta, a taxa de fertilidade sofreu uma leve alteração no período 2005-2010: passou de 1,6 filho por mulher para 1,64, em relação ao período anterior. A ONU acredita que isso se deve, sobretudo, a um fluxo de migrações internacionais que envolve em torno de 2,4 milhões de pessoas anualmente. Embora a política de imigração dos países desenvolvidos seja muito restrita especialistas afirmam que esse fluxo demográfico é essencial para garantir que esses países continuem a manter sua população em crescimento.
No período 2005-2010, segundo a ONU, o fluxo de migrações foi fundamental para manter o equilíbrio populacional (nascimentos menos mortes) em oito países, incluindo Espanha e Bélgica. Em outros, mesmo com um movimento migratório importante, poderá haver redução no total da população nestes cinco anos, nos quais morre mais gente do que nasce. É o que ocorre em Portugal, na Áustria, Alemanha, Grécia, Itália, no Japão e na Federação Russa.
Estudo da ONU estima que a União Européia precisará, até 2025, de 159 milhões de imigrantes como mão de obra para compensar o aumento do número de aposentados e a queda na taxa de natalidade. Ainda segundo o estudo, na virada do século XXI a chegada de imigrantes respondeu por 89% do cres¬cimento demográfico da Europa.
PLANOS PARA PUNIR IMIGRANTES ILEGAIS PODEM AFETAR IDOSOS NA ITÁLIA

É um símbolo cotidiano, quase como¬vente, da demografia complicada da Itália: um idoso italiano saindo para tomar ar fresco, às vezes de braços da¬dos com um imigrante que o ajuda. Os ajudantes geralmente não estão aqui legalmente, mas têm sido tolerados porque (...) cuidam da população do país que envelhece rapidamente.
Mas, apesar de a Itália estar envelhe¬cendo, também está mais preocupada com a criminalidade. E, para muitos italianos, para quem a imigração é um fenômeno relativamente novo, os imigrantes também têm um papel central nisso. De acordo com uma lei proposta pela ala ultraconservadora do governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, seria crime doloso chegar à Itália ilegal¬mente, e a punição seria a prisão. (...) Na Itália, onde a expectativa de vida está aumentando e a taxa de natalidade está entre as mais baixas do mundo, o mercado de assistência domiciliar pres¬tada por ajudantes estrangeiros tende a crescer bastante. O Istat, agência de estatísticas italiana, prevê que em 10 anos 13,4 milhões de italianos - quase um quarto da população -terá 65 anos ou mais. Até 2040, eles representarão um terço de todos os habitantes.(...)

Elsabetta Povoledo - The New York Times, 26/6/2008

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