sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Menos crianças, mais idosos

Onze por cento da população mundial já tem 60 anos ou mais, fenômeno que se deve à queda da taxa de fertilidade e à alta da expectativa de vida.
A humanidade está ficando mais ve¬lha. Neste meio de 2009, a popu¬lação mundial chega a 6,8 bilhões de pessoas. Globalmente, 759 milhões de habitantes, ou 11% desse total, têm idade igual ou acima de 60 anos, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Nos próximos anos, esse número deve crescer cerca de 2,6% ao ano.
Os dados mostram que existe um fenô¬meno de envelhecimento da população do mundo que representa uma tendência para o futuro. Em 1950, só 8% da popula¬ção mundial tinha 60 anos ou mais. Da¬qui a 40 anos, em 2050, serão 22%. Essa mudança tem várias conseqüências. Mas, primeiro, uma pergunta: por que a popu¬lação está cada vez mais velha?

fertilidade e longevidade

A humanidade, considerada no geral, fica mais velha porque a expectativa de vida está se ampliando e a cada dia cai o número de filhos por mulher. Esse último fenômeno demonstra que há um declínio da taxa de fertilidade - média do número de filhos que as mulheres têm durante a vida. A redução da taxa de fertilidade é causada por vários fatores combinados, como o desenvolvi¬mento e a dissemi¬nação de métodos contraceptivos e o aumento da parti¬cipação da mulher no mercado de trabalho, o que lhe tira a disponibili-dade para tarefas domésticas e para a dedicação integral aos cuidados dos filhos. O aumento da urbanização também estabelece um freio às famílias numerosas, pois acaba saindo caro sustentar uma família grande na cidade.
A expectativa de vida é o tempo estimado de existência de uma pessoa nascida em certo ano. Ele é estabelecido com base em pesquisas que mostram quanto as pessoas estão vivendo (isso se chama longevidade) e se esse tempo está aumentando ou dimi¬nuindo. O que contribui para o crescimento da longevidade é a melhoria do acesso da população a serviços de saúde, a campanhas de vacinação, à prevenção de doenças e, no geral, aos avanços da medicina Outro fator é o aumento da escolaridade e do acesso à informação, questões relacionadas direta¬mente à melhoria das condições de vida
Desigualdades

O envelhecimento da população não ocorre simultaneamente em todas as regiões do globo. Já faz certo tempo que é uma realidade nas regiões desenvolvidas, que incluem Europa, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Japão. Nesses países, tomados em conjunto, cerca de 22% da população já atingiu ou passou de 60 anos, e o número de idosos ultrapassou o de crianças abaixo de 15 anos, segundo a ONU.
No entanto, nas regiões mais pobres, a população ainda permanece jovem, com crianças abaixo de 15 anos constituindo 30% da população e os jovens entre 15 e 24 anos, mais 19%. Esses jovens repre¬sentam no mundo 2,8 bilhões de pessoas (1,7 bilhão de crianças e 1,1 bilhão de jovens).
O grande número de crianças e jovens nesses países significa que terá de haver grande esforço, nos próximos anos, de investimentos em educação e na criação de empregos, para absorver a geração que ingressa no mercado de trabalho.
Nos países desenvolvidos, o envelheci¬mento da população trouxe importantes implicações para o conjunto da socieda¬de. A diminuição da faixa da população em idade economicamente ativa (dos 25 aos 59 anos) impõe dificuldades para a reposição populacional, pois, além dessa idade, praticamente não há reprodução. Há diversos países da Europa cuja popu¬lação já estaria diminuindo se não fosse o fluxo de imigrantes vindos de países pobres, sobretudo da África e Ásia.
Outra conseqüência estrutural é o de¬sequilíbrio que pode ocorrer nas contas da previdência pública, já que, pelo sis¬tema tradicional, são as contribuições dos trabalhadores da ativa que pagam os rendimentos dos aposentados.

Transição demográfica

Em relação aos países pobres, é provável que a maioria, no próximo período, viva o declínio da taxa de natalidade e o aumento da longevi¬dade, resultando no envelhecimento gradativo da população. A esse pro¬cesso de mudança no perfil de idade da população de um país dá-se o nome de transição demográfica. Graficamente, significa que a forma da pirâmide que representa a composição etária da população vai ganhando, progressivamente, a forma de uma coluna mais .
Nas regiões menos desenvolvidas, as previsões são de que a taxa de fertilidade caia de 2,73 filhos por mulher (período 2005-2010) para 2,05 (período 2045-2050). E, entre as nações mais pobres - em sua maioria na África Subsaariana -, a queda deve ser ainda maior: de 4,39 crianças por mulher para 2,41- Para as Nações Unidas, essas mudanças estão ocorrendo por causa da expansão dos projetos de planejamento familiar e da ampliação maciça do uso de métodos contraceptivos modernos.
As regiões mais desenvolvidas do pla¬neta tiveram nas últimas décadas uma taxa de fertilidade abaixo de 2,1 filhos por mulher, considerado o mínimo para repor a população a longo prazo (pois considera-se que, para manter a popula¬ção, é necessário que cada casal tenha, em média, dois filhos, e alguns tenham mais, para compensar as crianças que morrem antes de atingir a idade reprodutiva).
Depois de a taxa de fertilidade ter caído bastante, parece agora haver uma reação, em razão da imigração e, provavelmente, no fato de muitos governos de países ricos adotarem medidas para incentivar os casais a ter filhos, como concessão de auxílio financeiro. Assim, entre 45 nações consideradas rias, 34 tiveram aumento nos índices de filhos por mulher. Nelas, a ONU projeta ura crescimento da taxa de fertilidade de 1,64 filho por mulher atual¬mente para 1,8 (período 2045-2050).
No período 2005-2010,25 nações de¬senvolvidas, incluindo Japão e vários paí¬ses do Leste Europeu, registram taxas de fertilidade abaixo de 1,5 filho por mulher. Assim, a população de 45 países deverá encolher entre 2010 e 2050, entre eles Alemanha, Japão, Cuba, Polônia, Coréia do Sul e Federação Russa.

Fertilidade caí no Brasil

O fenômeno do envelhecimento da população também se dá nos países em desenvolvimento, nos quais as taxas de fertilidade caem ano a ano. Os países mais populosos em que o fenômeno está ocorrendo são China, Brasil, Vietnã, Irã, Tailândia e Coréia do Sul.
A última vez em que o Brasil contou sua população pessoa por pessoa foi no Cen¬so de 2000 - os censos ocorrem a cada dez anos: éramos então 169,8 milhões de habitantes. Desde então, a população foi estimada por projeção, com base nas
taxas de crescimento estimadas em 2000. Por essas projeções, seríamos 189,9 mi¬lhões de habitantes em 2007.
Mas, há dois anos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) fe2 uma contagem restrita da população por amostragem (como numa pesqui¬sa de opinião), visitando 30 milhões de lares dos 5.435 municípios brasileiros Descobriu-se, então, que o país contava em 2007 com 183,9 milhões de habitantes 6 milhões a menos do que o indicado na: projeções. A população brasileira havia crescido bem menos do que o esperado.
O motivo é a diminuição da taxa de fer¬tilidade brasileira ano a ano.
No decorrer de sete anos, a partir de 2000, a taxa de fertilidade no Brasil caiu de 2,3 para 2 filhos por mulher, nível abaixo da taxa de reposição populacional a longo prazo. Isso resultou num cresci¬mento populacional de apenas 1,21% ao ano, em média, nesse período. O fenôme¬no não é novo: a queda está ocorrendo desde a década de 1960. Até 1990, a taxa havia despencado vertiginosamente, de 6,3 para 2,9. A partir de então, baixou mais suavemente, mas ainda é considerada acelerada para especialistas. Se a ten¬dência persistir, a população brasileira poderá diminuir a partir de 2060.

Vida mais longa

Segundo o estudo Tábua de Mortalida¬de 2006, do IBGE, a expectativa de vida do brasileiro vem aumentando. As crianças nascidas em 2006 devem viver, em média, 72,3 anos. Com relação a 1960, o ganho foi de quase 18 anos - um aumento de 32,4% (veja o gráfico na página ao lado).
A base da pirâmide etária do Brasil mudou indicando sinais de envelhecimento para a sociedade brasileira. Segundo o IBGE, o número de crianças de até 14 anos de idade equivale a pouco mais de 25% da população. Em 1996, era quase 30%. No extremo oposto da pirâmide, a popula¬ção de idosos com 70 anos ou mais vem aumentando. Em 2006, equivalia a 4,6%. As projeções indicam que até 2050 essa proporção deve subir para mais de 13%. O Brasil acompanha o ritmo de envelhe¬cimento do mundo.
A tendência indica uma melhoria na qualidade de vida, mas preocupa porque há cada vez menos jovens para sustentar um número cada vez maior de idosos. O envelhecimento populacional obriga a pensar no equilíbrio das contas da Pre¬vidência Social, responsável pelo paga¬mento das aposentadorias. No Brasil, o valor de quem se aposentou é pago com o desconto nos salários de quem trabalha. Então, como garantir aposentadoria e pensão a uma grande população de idosos se há cada vez menos jovens entrando no mercado de trabalho?
Por outro lado, mantendo-se saudá¬veis, os idosos estão trabalhando até uma idade cada vez mais avançada. Entre a população acima de 60 anos, 30,9% mantinham-se ativos no mercado de trabalho no Brasil, em 2006. Continu¬avam em atividade, apesar de aposen-tados, 19%. Os idosos acima de 60 anos representavam, naquele ano, 4,5% do total da força de trabalho brasileira - uma proporção considerável.

Países europeus dependem de imigrantes

Nas regiões mais desenvolvidas do pla¬neta, a taxa de fertilidade sofreu uma leve alteração no período 2005-2010: passou de 1,6 filho por mulher para 1,64, em relação ao período anterior. A ONU acredita que isso se deve, sobretudo, a um fluxo de migrações internacionais que envolve em torno de 2,4 milhões de pessoas anualmente. Embora a política de imigração dos países desenvolvidos seja muito restrita especialistas afirmam que esse fluxo demográfico é essencial para garantir que esses países continuem a manter sua população em crescimento.
No período 2005-2010, segundo a ONU, o fluxo de migrações foi fundamental para manter o equilíbrio populacional (nascimentos menos mortes) em oito países, incluindo Espanha e Bélgica. Em outros, mesmo com um movimento migratório importante, poderá haver redução no total da população nestes cinco anos, nos quais morre mais gente do que nasce. É o que ocorre em Portugal, na Áustria, Alemanha, Grécia, Itália, no Japão e na Federação Russa.
Estudo da ONU estima que a União Européia precisará, até 2025, de 159 milhões de imigrantes como mão de obra para compensar o aumento do número de aposentados e a queda na taxa de natalidade. Ainda segundo o estudo, na virada do século XXI a chegada de imigrantes respondeu por 89% do cres¬cimento demográfico da Europa.
PLANOS PARA PUNIR IMIGRANTES ILEGAIS PODEM AFETAR IDOSOS NA ITÁLIA

É um símbolo cotidiano, quase como¬vente, da demografia complicada da Itália: um idoso italiano saindo para tomar ar fresco, às vezes de braços da¬dos com um imigrante que o ajuda. Os ajudantes geralmente não estão aqui legalmente, mas têm sido tolerados porque (...) cuidam da população do país que envelhece rapidamente.
Mas, apesar de a Itália estar envelhe¬cendo, também está mais preocupada com a criminalidade. E, para muitos italianos, para quem a imigração é um fenômeno relativamente novo, os imigrantes também têm um papel central nisso. De acordo com uma lei proposta pela ala ultraconservadora do governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, seria crime doloso chegar à Itália ilegal¬mente, e a punição seria a prisão. (...) Na Itália, onde a expectativa de vida está aumentando e a taxa de natalidade está entre as mais baixas do mundo, o mercado de assistência domiciliar pres¬tada por ajudantes estrangeiros tende a crescer bastante. O Istat, agência de estatísticas italiana, prevê que em 10 anos 13,4 milhões de italianos - quase um quarto da população -terá 65 anos ou mais. Até 2040, eles representarão um terço de todos os habitantes.(...)

Elsabetta Povoledo - The New York Times, 26/6/2008

Saiba mais lendo : Atualidades vestibular – editora Abril

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Reservas indígenas

Desde a segunda metade de 2007, o noticiário sobre o aumento das tensões entre índios e não índios na reserva indígena Raposa Serra do Sol, no norte de Roraima, na fronteira com a Guiana e a Venezuela, vem ocupando espaço na mídia nacional e internacional. De um lado, os índios exigem que se respeite a reserva territorial pertencente às várias etnias que habitam a região. De outro, estão os não indígenas, pequenos proprietários de terra, comerciantes e, principalmente, os grandes plantadores de arroz — instalados na reserva desde a década de 1970 —, cujo produto tem destaque na economia do estado.
O conflito apresenta motivações econô¬micas, culturais e políticas. 01,7 milhão de hectares da reserva Raposa Serra do Sol está espalhado por planícies, semelhantes às do cerrado - denominadas na região de lavrado -, e cadeias de montanhas. Nele vivem cerca de 20 mil índios, a maioria da etnia macuxi. Há, ainda, os ingaricós, taurepangs, uapixanas e patamonas. O estado tem uma população indígena de 44 mil pessoas, em 32 reservas, que ocupam 46% do território estadual.

Demarcação arrastada

A história da reserva é an¬tiga, de quase 100 anos atrás. Em 1917, o governo do esta¬do do Amazonas (que então detinha o território) decidiu por lei destinar as terras entre os rios Surumu e Cotingo à ocupação dos índios macuxis e jaricunas. Dois anos depois, o Serviço de Proteção ao índio (antecessor da atual Funai) ini¬ciou a demarcação da área.
O trabalho, porém, parou no meio e só foi retomado 58 anos depois, quando, em 1977, a Fundação Nacional do índio (Funai) instituiu um grupo de trabalho interministerial para identificar os limites das terras indígenas na região. Novamen¬te, o trabalho foi interrompido.
Os índios tiveram de esperar mais 30 anos, durante os quais pleitearam direito sobre o território. Enquanto isso, não índios iam invadindo parte do território. Finalmente, em 1998, houve a demarca¬ção das terras pelo então presidente Fer¬nando Henrique Cardoso, e o Ministério Público declarou-as reserva indígena.
Acontece que, aí, o governo de Roraima e os rizicultores entraram na Justiça para im¬pedir o Executivo de homolo¬gar a reserva indígena. Foram mais seis anos de processo, até que, em 2004, o Supre¬mo Tribunal Federal (STF) suspendeu as liminares que impediam o governo de criar a reserva. Em abril de 2005, um decreto presidencial assina¬do pelo presidente Lula definiu que 1,7 milhão de hectares de terras contínuas pertencem à área da reserva indígena Raposa Serra do Sol.
O decreto incluiu medidas compensa¬tórias para a população a ser retirada da reserva, como a cessão de terras da União para a implantação de um pólo agropecuá¬rio de 150 mil hectares, o assentamento dos não indígenas e créditos no Programa Nacional de Agricultura Familiar.
Os rizicultores e outros ocupantes do território, com o apoio do governador Ottomar Pinto (PSDB), porém, decidiram resistir à demarcação da reserva. Além de ações políticas e judiciais, procuraram manter o local de moradia e trabalho e suas plantações dentro da área. Eles querem que a reserva indígena não seja contínua, mas, sim, mesclada com seu ter¬ritório, onde haja áreas de uso normal.
Representantes indígenas recorreram à Comissão de Combate ao Racismo da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suíça. Em resposta, o órgão convocou oficialmente o governo brasileiro e exigiu a retirada dos ocupantes das ter¬ras da reserva. Após mais de seis meses de tensão contínua e de promessas oficiais de retirada dos não indígenas do território, a Polícia Federal interveio em março de 2008. Naquele momento, parte dos índios da re¬serva já estava em pé de guerra, entrando em choque aberto com grupos armados montados pelos ocupantes; o conflito amea¬çava generalizar-se por toda a região. Mas, 13 dias depois de iniciada a operação da Poiícia Federal, o STF concedeu liminar impetrada pelo governo de Roraima, suspendendo a ação policial. A decisão do Supremo deve vigorar enquanto houver ações judiciais que questionem a demarcação no órgão, e existem 33 processos em andamento.

Terras indígenas

Com os ânimos na região acirrados, o general Augusto Heleno, comandante mi¬litar da Amazônia, declarou em abril que a política indigenista "é lamentável, para não dizer caótica". Disse, também, que uma reserva indígena de terras contínuas na fronteira é uma ameaça à soberania nacional. As declarações do general foram rebatidas pelo presidente da Funai, Márcio Meira. Ele disse que a política indigenista brasileira é um sucesso, embora haja áreas vulneráveis. Segundo Meira, o índio é protegido, sua população sobrevive e está até crescendo.
Mas, afinal, os governantes de Roraima têm razão quando afirmam que, se boa parte das terras do estado vira reservas indígenas, isso inviabiliza a economia local? Ou quando dizem que são poucos índios para muita ter¬ra? Essas questões levam a outra pergunta: quais são as razões e os critérios para que se demarquem terras indígenas?
O motivo básico é o seguinte: os índios são reconhecidos pelo Estado brasileiro como representantes de uma cultura própria, que tem de ser respeitada e preservada, e, para que seu modo de vida se mantenha, é fundamental garantir-lhes as terras necessárias. Assim, a Constituição brasileira afirma- "São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam (...)".
Mas por que as reservas são tão grandes? A explicação é que o espaço das reservas deve incluir áreas para as aldeias, para as ativida¬des de subsistência, para a preservação do meio ambiente e ainda para a reprodução física e cultural dos índios, tudo isso de acor¬do com o modo de vida deles. Por exemplo, quando certo grupo indígena é sedentário, e pratica a agricultura, precisa de uma área menos ampla do que uma nação indígena cujos membros são caçadores-coletores nômades, que migram para vários lugares com suas tribos e famílias.
Também é necessário considerar que os índios vivem nessas terras desde antes da criação do Estado brasileiro e, por isso, possuem direitos exclusivos de posse e uso, como afirma a Constituição: "(as terras) destinam-se a sua posse permanente, caben¬do-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes".
Isso, porém, não inclui o potencial energé¬tico, a exploração comercial dos recursos hí-dricos nem a pesquisa e a lavra das riquezas minerais, pois tudo isso tem de passar por deliberação do Congresso Nacional. E o caso da reserva Roosevelt, em Rondônia, onde os índios cintas-largas reivindicam o direito de explorar diamantes no território.
Em nosso país existem atualmente 225 povos indígenas, que vivem em 635 terras reconhecidas pela Funai. Cerca de um quinto delas, porém, ainda não teve seu processo de demarcação con¬cluído (veja tabela acima). Hoje, 12,7% da superfície do Brasil - mais de 107 milhões de hectares - está reservada a grupos indígenas, embora os índios instalados nelas representem menos de 1% da população (veja mapa acima). Ainda existem grupos de índios isolados, estima que haja 55 tribos nessa condição, sobre as quais não se tem idéia de quantos são nem que idioma falam. Um exemplo é a tribo fotografada pela Funai no início deste ano (veja as fotos na pág. 98 e na contracapa desta edição').
População cresce

Uma coisa, porém, é incontestável: nos úl¬timos anos, a população indígena brasileira vem crescendo. Pode haver uma discussão sobre quantos são os índios brasileiros, mas todo mundo concorda que eles vêm ficando mais numerosos .
Nas respostas ao censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Esta¬tística (IBGE), em 1991, 0,2% da popu¬lação brasileira se declarava indígena. Na repetição da pesquisa em 2000, esse percentual dobrou, chegando a 0,4%, o que àquela época representava 734.127 pessoas. Esse aumento foi interpretado como perda do receio de se dizer índio. Alguns descendentes de índios, assim como outros brasileiros de ascendência negra, não declaravam a origem devido à herança de preconceito da sociedade. Políticas de igualdade racial e de assis¬tência social estariam quebrando essas barreiras. A classificação por cor da pele feita pelo censo respeita a auto declaração do entrevistado, independentemente de onde more.
Mas a Funai, que também faz seu le¬vantamento, só considera índios aqueles que vivem em reservas já delimitadas. Por isso, há discrepância entre os núme¬ros. Para o órgão, a população indígena brasileira era de 530 mil pessoas em janeiro de 2008. Mesmo observando esses números, há crescimento popula¬cional constante. Em 2000, a fundação contabilizava 328 mil índios no país. Naturalmente, quando se delimitam novas terras indígenas, essa contagem adiciona milhares de novos índios.
Esse crescimento populacional recen¬te tem uma importância histórica, pois durante séculos a população indígena diminuiu no Brasil, e só recentemente, com a demarcação de reservas e o maior respeito pela cultura e pelo modo de vida dos índios, houve condições de essa população voltar a crescer.
Quando os portugueses chegaram a Porto Seguro, em 1500, estima-se que havia entre 2 milhões e 5 milhões de índios vivendo no Brasil, divididos em cerca de 1,4 mil povos, que falavam 1,3 mil línguas e ocupavam quase toda a superfície do atual território. Hoje, são contabilizadas apenas 180 línguas. Com o avanço dos colonizadores nos séculos seguintes, os índios foram sumindo da região litorânea - por aculturamento, extermínio ou fuga -, sendo reduzidos a menos de 500 mil na segunda metade do século XX. Em 2007
visita ao Brasil, em 2007, o papa Bento XVI reconheceu as "injustiças infringidas" aos índios durante a colonização, referindo-se às justificativas para o extermínio de grande parte da população indígena.

Pressão urbana
Os índios podem estar se multiplicando, mas vivem em grande penúria. São mais pobres do que os brancos e os negros, e, de cada mil crianças índias nascidas, 51 morrem antes de completar l ano de vida, de acordo com o IBGE. É uni índice altíssimo em um país cuja mortalidade infantil já desceu para 26,6 crianças para mil nascidas vivas.
A difícil vida dos índios na cidade

A maioria dos índios brasileiros vive em áreas fora de perímetros urbanos. É a regra geral. No entanto, existe uma população considerável de indígenas ra¬dicados em cidades. É o caso dos pankararus, originários do sertão pernambucano, onde mantêm suas raízes. Pouco mais de 1,5 mil índios ocupam parte da favela Real Parque, no Morumbi. Passaram a vir regularmente para o sul à procura de trabalho: inicialmente, nas madeireiras do interior, nos anos de 1940, e, depois, na construção civil. Os pankararus cultivam suas tradições culturais, inclusive o toré, canto e dança tradicionais da tribo.
Na cidade de São Paulo vivem também guaranis, na reserva do Jaraguá, na Zona Oeste, e em outras duas em Pareiheiros - Krukutu e Barragem. Os guaranis pre¬servam sua cultura e mantêm um grupo de canto e dança, além de escolas com professores indígenas. Mas essas reservas
são muito pequenas e não atendem às necessidades de espaço de acordo com sua cultura e seus costumes. A inserção nos centros urbanos traz o envolvimento com os hábitos de vida e consumo dos não índios. Nessas situações, o índice de alcoolismo e dependência de drogas torna-se alto no meio indígena.
É isso o que vem acontecendo há anos na área guarani-caiuá, na região metro¬politana de Dourados, em Mato Grosso do Sul. Ali, cerca de 40 mil índios vivem abarrotados numa reserva de 30 mil hec¬tares. O índice de assassinatos, suicídios, além da morte por desnutrição, atinge números alarmantes. Só em 2007 foram 53 homicídios, e as vítimas tinham entre 15 e 29 anos de idade. Os índios dessa região servem como mão-de-obra barata para as plantações, principalmente as de cana-de-açúcar, nas quais o trabalho é pesado e extenuante.
Era certas partes do Brasil, sobretudo fora da Amazônia, as reservas são peque¬nas demais, diante do crescimento popu¬lacional das aldeias, para possibilitar unia sobrevivência digna nos moldes indígenas. A expansão da agropecuária e das cida¬des aproxima cada vez mais as reservas das periferias urbanas. Em muitos casos, sem alternativas, em aldeias minúsculas e super povoadas, os Índios são atraídos por empregos no agronegócio da soja e da cana. Alguns grupos indígenas sem terra acabam empurrados para periferias urbanas. É o caso dos sateré maués da imagem que abre esta reportagem. Sem acesso a moradia ade¬quada em Manaus, ocuparam uma área às margens de uma rodovia no Amazonas. Em 11 de março, a Polícia Militar foi retirá-los. Tentaram resistir, mas acabaram saindo.
As condições de vida na cidade não são melhores para os índios. A mortalidade in¬fantil entre os que vivem em áreas urbanas é ainda maior do que entre os que vivem em áreas rurais (52 crianças mortas para cada mil nascidas). Mato Grosso do Sul tem 45 mil índios, quase todos vivendo em zonas urbanas. Além da desnutrição das crianças, obrigadas a abandonar os hábitos alimentares tradicionais de seu povo, exis-
tem conflitos associados à posse das terras e ao convívio urbano, como violência, doenças sexualmente transmissíveis e alcoolismo.

Educação

Pela lei, os índios podem escolher o pró¬prio processo de desenvolvimento. Na lista de seus direitos, um dos mais importantes é a educação, incluindo o aprendizado das línguas nativas. O ensino deve respeitar seu modo e ritmo de vida. Para isso, os índios são estimulados a se formar professores - 3 mil deles ensinam nas 2,3 mil escolas indígenas espalhadas pelo país, segundo o Ministério da Educação. Alguns centros de ensino superior, como a Universidade de Brasília, mantêm um sistema de cotas para o ingresso de alunos indígenas. Ao todo, 1,3 mil índios cursam o nível superior em todo o país, segundo a Funai.
Nesse cenário, as taxas de alfabetização dos índios cresceram. Em 1991, os alfabeti¬zados indígenas eram menos de 50%; em 2000, essa taxa alcançou 73,9%, de acordo com o IBGE. O número de anos de estudo também aumentou, índios com 10 anos de idade ou mais tinham em média dois anos de estudo em 1991. Em 2000, essa média subiu para 3,9 anos.
TERRAS INDÍGENAS DETÊM DEVASTAÇÃO NA FRONTEIRA

Se floresta em pé for critério de sobe¬rania nacional, então as terras indígenas em faixa de fronteira na Amazônia deve¬riam ser estimuladas e não criticadas - pelos militares. Um novo levantamen¬to mostra que essas reservas são eficien¬tes em conter o avanço da grilagem e do desmatamento. Na maioria delas, o desmate acumulado a té 2006 é igual ou menor que 1% de sua área. (...)
Os cálculos foram feitos a pedido da Folha pelo ISA {Instituto Sócio-ambiental), com base em dados de desmata¬mento do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Eles consideraram 24 terras indígenas que fazem fronteira com outros países. (...)
Entre as áreas computadas, está a Raposa Serra do Sol, (...) Raposa, no
entanto, é uma exceção no quesito desflorestamento, pois apenas 13% de sua área é floresta (o resto são savanas abertas e campos naturais).
O mapeamento do ISA mostra que, dessas 24 áreas, apenas uma registra desmatamento maior que 20%, per¬centual máximo permitido por lei na Amazônia. Trata-se da terra indígena Tukuna Umariaçu, de cerca de 4-900 hectares, no Amazonas. (...)
Áreas grandes, como a terra indígena lanomami, na divisa com a Venezuela, e a Vale do javari, contígua à Colômbia, têm 0,26% e 0,27% de sua área desma¬iada, respectivamente. (...)
Os cálculos do ISA confirmam algo que estudos anteriores já apontavam: o papel dos índios de frear a expansão das ativida¬des predatórias na Amazônia, papel ainda maior que o dos parques nacionais. (...)

Folha de S.Paulo, 4/5/2008 - Cláudio Ângelo / Editor de Ciência

Para saber mais leia Atualidades – guia do estudante 2009 – Ed. Abril

O mundo superlotado

Os recordes sucedem-se, de forma implacável. Fim da tarde de 24 de janeiro de 2008: a cidade de São Paulo tem 182 quilômetros de conges¬tionamento - 30 quilômetros a mais que o recorde anterior, registrado dez dias antes. 11 de março, 8h30:183 quilômetros de carros entopem as principais vias da cidade. 10 de maio, 19h30: paulistanos enfrentam 266 quilômetros de trânsito parado. Motoristas e passageiros cada vez mais tempo presos nos carros, irritados, atrasados, perdendo compromissos.
Estima-se que os engarrafamentos cau¬sem prejuízos da ordem de 52 bilhões de reais a cada ano - o equivalente a 20% do Produto Interno Bruto da cidade - com o desperdício de combustível, o desgaste de peças dos automóveis e, principalmen¬te, o consumo de horas que deveriam ser destinadas ao trabalho e produção. Transporte público ineficiente e falta de investimento estão na raiz do problema, mas o fato é que São Paulo tem carros demais porque tem gente demais vivendo e trabalhando na cidade.
Segundo o Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran), a frota de automóveis, motos, ônibus e caminhões licenciados na capital atingiu, no fim de fevereiro, a marca de 6 milhões. Estima-se que, nos horários de pico, 4 milhões de pes¬soas circulem - ou tentam circular - pelas ruas paulistanas. O número de motoristas também cresce vertiginosamente: o Detran emite, a cada ano, 100 mil carteiras de ha¬bilitação, só na capital.
Engenheiros de trânsito e urbanistas calculam que, se nada for feito, São Paulo travará em cinco anos. Embora em escala menor, outras capitais, como Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, também vivem um nó górdio no trânsito. Esse é só um dos problemas causados pelo crescimento acele¬rado e desordenado das cidades brasileiras, que incham ano após ano.
Urbanização à brasileira

Entenda-se bem: urbanização não é sinônimo de crescimento das cidades. O termo descreve o aumento da proporção da população que mora nas cidades em relação à parcela que vive em zonas rurais. Em algumas (relativamente raras) cir¬cunstâncias, a urbanização de uma região pode ocorrer sem que haja crescimento real nas cidades - por exemplo, no caso de uma epidemia que provoque grande mortandade no campo. Mas não é isso o que ocorre normalmente. No geral, a desproporção é causada pelo êxodo rural - as pessoas deixam o campo em busca de melhores condições de vida na cidade.
Como regra, a urbanização é efeito dire¬to da industrialização de uma sociedade. No Brasil, os dois fenômenos dão uma gui¬nada efetiva a partir de meados do século XX. Até o Censo de 1940, apenas um terço dos brasileiros vivia nas cidades. Nas dé¬cadas seguintes, o crescimento industrial e a integração do território nacional por meio das rodovias e das telecomunicações transferem cada vez mais moradores dos campos para as cidades. Nos anos 1980, todas as regiões brasileiras já possuíam a maioria dos habitantes em centros ur-banos. Hoje, o país está entre as nações mais urbanizadas do mundo.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geo¬grafia e Estatística (IBGE), do total de 55 milhões de domicílios existentes no país, 84,7% estão em zonas urbanas. Esses domi¬cílios reúnem 83,3%da população brasileira. A região mais urbanizada é a Sudeste, par¬ticularmente os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Nesses estados se encontram duas das maiores regiões metropolitanas do planeta. São Paulo, com 18,8 milhões de habitantes, ocupa a quinta posição no ranking mundial da Organização das Nações Unidas (ONU). Ali se encontra mais de 10% da população do país, que é responsável por 25% do Produto Interno Bruto nacional. O Rio de Janeiro, a segunda metrópole brasi¬leira, com 11,7 milhões de habitantes, ocupa a 14a posição mundial.

Regiões metropolitanas

Efeito direto da urbanização, as regiões metropolitanas são criadas pela expansão da periferia, que leva à junção de municípios numa única mancha urbana. O Brasil tem 31 regiões metropolitanas, que reúnem mais de um terço dos domicílios urbanos e 30% da população do país. A taxa de crescimento dessas regiões é muito superior à das demais áreas: 2,01% entre 1991 e 2000, contra 1,38% nas regiões não-metropolitanas.
Não é difícil entender por que tanta gente quer morar nas cidades. Em tese, os centros urbanos oferecem maiores oportunidades de trabalho e renda, maior riqueza cultural e melhor qualidade de vida. Acontece que a urbanização brasileira é marcada por desigualdades socioeconômicas - e existe muita miséria nos centros urbanos. Quanto mais baixa a renda mensal por morador da casa, menor é o percentual de casas com saneamento básico: 81,9% dos domicílios com renda per capita acima de cinco salá¬rios mínimos contam com todos os serviços de saneamento, mas, em lares com renda per capita abaixo de meio salário mínimo, essa porcentagem é de 40%.
O déficit habitacional é outro problema causado pela urbanização acelerada. Ao crescerem sem planejamento, as cidades não têm como ofertar moradia a todos os que nela chegam. Segundo o Ministério das Cidades, o Brasil precisa de 7,2 milhões de novas habitações. Quase 40% dessa de¬manda está concentrada nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Como conseqüência dessa carência surgem os assentamentos irregulares, os loteamentos clandestinos, o crescimento das favelas e a ocupação de espaços pú¬blicos, como praças, viadutos e margens de rios - o que também leva ao aumento da poluição. Segundo o IBGE, na última década a população das favelas cresceu num ritmo quatro vezes superior ao do resto da população. A Fundação Getulio Vargas prevê que a população favelada deverá mais do que dobrar em dez anos, atingindo 13,5 milhões de pessoas.

Critérios diferentes

Existem diversas maneiras de contar a população urbana e rural de um país. O critério usado pelo IBGE considera zona urbana toda sede de município e distrito, não importando o tamanho da população nem a densidade demográfica local. Já a Organização para a Cooperação e o Desen¬volvimento (OCDE), órgão que coordena políticas sociais dos 30 países mais ricos do mundo, um núcleo de habitantes só é considerado zona urbana se 85% dessa população viver numa área com densidade demográfica superior a 150 habitantes por quilômetro quadrado. Ou seja, enquanto a OCDE adota um critério puramente demográfico, a contagem no Brasil leva em conta aspectos administrativos.
O sistema brasileiro produz algumas distorções. Um relatório divulgado em 2006 pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostrou que ape¬nas 0,25% dos 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro é efetiva¬mente urbanizado - uma área equivalente à do estado de Sergipe. Ou seja, o Brasil é mais rural do que se afirma. É importante notar que cabe às prefeituras definir ofi¬cialmente as áreas urbanas ou rurais. Como os impostos dos imóveis urbanos são mais altos, é comum a prática de inchar as áreas urbanas para ampliar a arrecadação.

Para saber mais leia: Atualidades vestibular 2009 – Ed. Abril

Mortalidade no Brasil (2004)

Conhecendo dados da mortalidade o estado pode planejar ações para combatê-la e a sociedade pode cobrar essas ações do governo.
- mortalidade = 8,5 %0
- doenças não transmissíveis = 70 %
- doenças transmissíveis = 19%
-causas externas = 11% (homicídios, suicídios, acidentes). 70 % dessas mortes tem entre 15 e 29 anos e 80 % delas são de homens.
- 52000 crianças morreram em 2008 (4,8%) a maioria por causa da pobreza.
- em 1980 25% dos óbitos ocorrem depois dos 69 anos. Em 2008 foram 44% o que significa aumento da longividade e envelhecimento da população.
- 30 % dos óbitos ocorrem por derrame, infarto, hipertensão e doenças do aparelho circulatório.
- o nível de pobreza baixou 25 % (1990) para 5 % (2008) onde 27 milhões de brasileiros deixaram o grupo dos extremamente pobres (menos 1,25 dólar/dia)
- tabagismo -1m 1989 35 % da população fumava. Hoje, caiu para 15 %, reduzindo as mortes por doenças respiratórias e cardiovasculares.
- 83 % dos homicídios ocorrem em apenas 10 % das cidades brasileiras.
- 72 % dos assassinatos são por tiro
- 16 % por facadas
- 5 % por objetos contundentes 5 % por outras causas
- 1 % por enforcamento
GASTOS MILITARES (EM 1,6 TRILHÕES DE DÓLARES)
EUA = 42,8
CHINA = 7,3
REINO UNIDO = 3,7
FRANÇA = 3,6
JAPÃO = 3,3
ARÁBIA SAUDITA = 2,8
ALEMANHA = 2,8
ÍNDIA = 2,5
ITÁLIA = 2,3
RESTANTE DO MUNDO = 25,4%
ETNIAS NO IRAQUE:
60 % árabes e xiitas
20 % por sunitas
15 % por curdos
5 % por outros
VULCÕES:
450 ativos – a maioria se localizam entre as placas tectônicas,
80 % ficam no cinturão de fogo do pacífico e 90 % dos tremores ocorrem nessa área.
USO DE NERGIA NUCLEAR
EUA – 32 %
França – 17 %
Japão – 6 %
Rússia – 6 %
Brasil – 0,52 %
ARSENAL ATÔMICO (em ogivas)
EUA -5.113
Rússia – 7.200
França – 320
Reino Unido – 225
Israel – 50
Paquistão- 70
Coréia do Norte – 12
ENRIQUECIMENTO DE URÂNIO
2,5 5 % a 5 % - combustíveis para usinas
20 % - combustíveis para submarinos e uso medicinal
+ 90 % - combustível para bomba atômica

Para saber mais leia: Atualidades vestibular – editora Abril

Migração

Marroquinos tentam saltar muros de 3 metros de altura nos territórios espanhóis de Ceuta e Melilla. As centenas, africanos apinhados em embarcações improvisa¬das atravessam o mar para alcançar solo europeu - muitos se afogando no meio do caminho. Afeganes sufocam-se em caminhões fechados, na longa viagem da Ásia ao Reino Unido. Na América do Norte, mexicanos tentam varar barreiras e burlar policiais do próprio país para entrar nos Estados Unidos. Todos são imigrantes que deixam o lar em busca de melhores oportunidades de vida em outros países.
Vivemos numa época de grandes ondas de migração internacional. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 3% da população do mundo vive longe do país em que nasceu. O número de imigrantes dobrou nas últi¬mas três décadas e superou o patamar dos 190 milhões em 2005 - todos à procura de oportunidades de trabalho ou em fuga de conflitos armados.

Crescimento vertiginoso

Os fluxos migratórios ocorrem em geral a partir de áreas nas quais a popu¬lação aumenta rapidamente em direção a regiões onde o crescimento demográfico é mais lento. A escalada da imigração da história recente é' um fenômeno sem paralelo por causa do rápido crescimento populacional e do aumento na expectativa de vida. O pla¬neta está cada vez mais cheio de gente., No início do século XX, a população do mundo era de 1,6 bilhão de pessoas. No fim, já éramos 6,1 bilhões, ou seja, quase quatro vezes mais. E continuamos cres¬cendo, a uma taxa anual de 1,2% - cerca de 77 milhões de indivíduos nascem a cada ano. Ao mesmo tempo, a taxa de mortalidade cai. Se no início dos anos 1900 a média da expectativa de vida do planeta estava em torno dos 30 anos, hoje passados 60.
O crescimento populacional concentra-se principalmente nos países menos de-senvolvidos: em 1950, para cada habitante do bloco de países desenvolvidos, havia dois no mundo em desenvolvimento. Hoje, para cada nascimento em nações ricas surgem quatro em países pobres. De acordo com projeções da ONU, até 2050 essa relação será de um para sete. Apenas seis países são responsáveis pela metade do crescimento demográfico da Terra: índia, China, Paquistão, Nigéria, Bangladesh e Indonésia. Tal concentra¬ção cria enorme pressão migratória sobre os países mais desenvolvidos, que tendem a fechar seu território.

UE expulsa imigrantes

E o que está ocorrendo com a União Européia (UE). Em junho de 2008, o Par¬lamento Europeu, que reúne represen¬tantes dos 27 países do bloco econômico, aprovou regras para expulsar imigrantes ilegais, ignorando protestos de ativistas de direitos humanos. A polêmica lei de expulsão de imigrantes - chamada de diretiva de retorno - estabelece a prisão dos ilegais pelo período máximo de 18 meses, além da proibição de retornar ao continente europeu por cinco anos. O Parlamento discute, ainda, outras ações
de política de imigração, como a proposta de impor sanções aos empregadores de imigrantes ilegais e o estabelecimento de condições diferenciadas para entrada e residência de trabalhadores altamente especializados, em detrimento dos imi¬grantes com baixa qualificação.
Notório opositor da imigração na França, o presidente Nicolas Sarkozy tenta fazer o Parlamento da UE aprovar o Pacto Europeu sobre Imigração e Asi¬lo, para promover em todo o território europeu a imigração baseada na seleção de profissionais. A imigração que visa a reagrupar familiares deverá ser fiscali¬zada e inibida pelo maior controle d fronteiras. A União Européia também deverá ter uma política única de asilo. A medida fundamenta-se no fato de que 7,1% dos 190,6 milhões de imigrantes in¬ternacionais são qualificados pela ONU como refugiados. São pessoas que não migram voluntariamente, em busca de emprego, mas são expulsas de seu país em virtude de guerras civis e conflitos étnicos.
Os especialistas afirmam que, ao endu¬recerem a política de imigração, os países europeus ignoram o fato de que necessi¬tam dos imigrantes para crescer. Estudo da ONU estima que a UE precisará, até 2025, de 159 milhões de imigrantes como mão de obra para compensar o aumen¬to do número de aposentados e a baixa taxa de natalidade. Segundo o estudo, entre 1999 e 2000, os estrangeiros foram responsáveis por 89% do crescimento demográfico da Europa.
Muros nas fronteiras

Os europeus querem barrar o fluxo mi¬gratório que parte da África, a maioria pessoas originárias da África Subsaariana. São homens e mulheres com idades que variam de 18 a 30 anos, muitos com nível de educação que ultrapassa o secundário - ar¬tesãos, operários, agricultores, médicos ou engenheiros dispostos a aceitar trabalhos subalternos recusados pelos europeus.
Os enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla, no Marrocos, no norte da África, ga¬nharam importância na rota de passagem para a Europa depois de urna reunião do Conselho Europeu em Sevilha, na Espa¬nha, em 2002. Naquela ocasião, diversos países europeus ameaçaram bloquear os auxílios financeiros aos países africanos de "saída" e de "trânsito" que não ajudassem a combater a imigração clandestina. O objetivo era criar um cordão sanitário em torno da União Européia, transferindo aos países vizinhos, principalmente o Mar¬rocos, a responsabilidade pela repressão aos que emigram ou pedem asilo. A essas nações "de passagem" caberia, assim, o ônus de lidar com situações que envolvem a violação dos direitos humanos.
Em 2004, a UE e seu aliado, o Marrocos, ampliaram as fortificações em Ceuta e Melilla. Em outubro de 2005, centenas de pessoas tentaram pular os dois muros da fronteira em Ceuta, enquanto fugiam das forças marroquinas. A infeliz emprei¬tada terminou com o saldo de 13 mortos e dezenas de feridos. Em decorrência do episódio, o primeiro-ministro socialista da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, mandou construir um terceiro muro de segurança na fronteira, equipado com tecnologia suficiente para barrar a entrada de imigrantes em território espanhol.
As rotas de migração para a Espanha desviaram-se e começaram a partir do litoral do Atlântico, no noroeste da África. Desde 2006, milhares de migrantes tentam realizar a perigosa viagem pelo Atlântico, partindo de Nouadhidou, na Mauritânia, ou de Dacar e Saint Louis, no Senegal.

EUA de portas fechadas

Os muros de Ceuta e Melilla não são os únicos exemplos de fronteiras muradas. Em 2006, o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, descreveu a fron¬teira com o México como "perigosa" porta de entrada de narcotraficantes e anunciou a construção de um muro no lugar da cerca existente entre os dois países. Bush orientou a construção de uma barreira
fortificada, com câmeras infravermelhas, aviões automáticos, que voam sem pilo¬to, e 12,5 mil agentes de fronteira. Uma barreira de 12 quilômetros foi construída na cidade de San Diego, e outras cidades foram protegidas com alambrados.
Segundo o relatório do Banco Mundial de 2006, intitulado Igualdade e Desen¬volvimento, o México é a nação líder em exportação de mão de obra no mundo: apenas no qüinqüênio 1995-2000 foram 2 milhões de imigrantes. Anualmente, a média de imigrantes que se dirigem aos Estados Unidos é de cerca de 500 mil.
A nova barreira endossa a política que faz da questão migratória um assunto de segurança nacional. Em pouco mais de uma década, desde que entrou em vigor a política de dificultar o acesso à fronteira entre os dois países, mais de 4 mil mexica¬nos morreram ao tentar entrar nos Estados Unidos, ou por afogamento, ou por sede e calor, na travessia do deserto.
Além disso, Bush seguiu o exemplo euro¬peu e empurrou a fronteira migratória dos EUA para o sul, transferindo os conflitos para outros territórios. Entre 2000 e 2006, o próprio governo mexicano se encarregou de expulsar do México mais de 1,2 milhão de pessoas vindas da América Central - que estavam no país como última escala antes de entrar nos Estados Unidos.
Europeus já foram imigrantes
O fluxo das migrações internacionais muda de tempos em tempos. Até o século XVIII, os europeus representavam cerca de 18% da população global e viviam em sua terra de origem. Dois séculos depois, na década de 1930, quando o domínio do mundo pela Europa atingiu o auge, os eu¬ropeus correspondiam a 35% da população do planeta e já se encontravam espalhados pelas colônias em vários continentes - África, Américas, Ásia e Oceania.
Nem sempre os europeus deixaram sua terra natal no papel de colonizadores. No período anterior à l Guerra Mundial - entre 1899 e 1913 -, quando se registrou a maior migração em massa da história, quase 15 milhões de pessoas, a maioria de europeus, desembarcaram nos Estados Unidos em busca de melhores oportunidades. O mes¬mo ocorreu em países da América do Sul,
como o Brasil, para onde vieram italianos, alemães, espanhóis e portugueses também em busca de trabalho.
Em meados dos anos 1930, a população européia parou de aumentar. Hoje a taxa de crescimento demográfico chega perto -e, muitas vezes, fica abaixo - dos níveis míni¬mos de reposição populacional, enquanto nos países pobres a população aumenta rapidamente. Essa mudança de padrão inverteu também o sentido dos fluxos migratórios. Com o processo de descoloni¬zação que marcou o fim do domínio impe¬rial europeu sobre o mundo, a população de origem européia que vivia nas colônias ultramarinas começou a se transferir, em massa, de volta ao Velho Continente. Es¬tava estabelecido o sentido de migração das regiões em desenvolvimento para as nações industrializadas da Europa.
Refugiados e deslocados

Nem todas as migrações são voluntá¬rias. Amplos movimentos migratórios são às vezes induzidos por guerras ou convulsões políticas. A ONU criou uma definição e um nome para as multidões de 24,5 milhões de pessoas desgarra¬das que circulam pelo planeta (dados de 2006), mas que não são imigrantes nem refugiados em busca de asilo. São internally displaced persons (IDP), ou pessoas deslocadas internamente.
A expressão é usada para designar grupos
que foram forçados, ou viram-se obrigados, a abandonar sua casa em conseqüência de conflitos armados, violações dos direitos humanos ou desastres (naturais ou fabri¬cados pelo homem), mas que não tenham cruzado uma fronteira entre países. Aque¬les que cruzam fronteiras para escapar de lutas são chamados de refugiados, de acordo com convenção internacional de 1951, ampliada em 1967. Esses represen¬tam 7,1%do total de imigrantes no mundo, ou 13,5 milhões de pessoas.

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Migração Japonesa

Em 1925, quando Manuel Bandeira escreveu o poema Não SeiDan-1 çar, do qual reproduzimos a estrofe acima, não se haviam passado nem duas décadas do desembarque dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil, a bordo do navio Kasato Maru, para trabalhar nas lavouras cafeeiras de São Paulo. Aos pioneiros, seguiram-se milhares de compatriotas nos anos seguintes. Nas cidades, os japoneses ainda eram poucos e desapareciam diante do número muito superior de imigrantes europeus, sobretudo italianos. Mas a literatura - sensível às novidades -já antecipava o contato com personagens japoneses, dentro do projeto modernista de assumir a diversidade étnica brasileira e va¬lorizar as culturas que formavam o país. Mário de Andrade, em Amar, Verbo Intransitivo (1927), insere o personagem Tanaka, criado japonês de uma família burguesa em Higíenópolis; e Oswald de Andrade traça, em Marco Zero - Chão, o panorama da sociedade paulista nos anos 1930, com o êxodo rural, o desen¬volvimento urbano e a trajetória dos imigrantes, na qual ao japonês é atribuída uma visão estratégica na ocupação da terra.
Se na época de nossos modernistas a imigração nipôiiica ainda era incipiente, chegamos agora ao centenário dela com uma presença consolidada da comunidade japonesa em nosso país. Nesta reportagem, queremos chamar atenção, sobretudo, para o fato de que a migração de japoneses para o Brasil, e, nos últimos anos, de seus descendentes para o Japão, se insere ple¬namente nos grandes fluxos das migrações globais. Mas, se a migração significa quase sempre desafios e sacrifícios, o que move as pessoas a deixar a terra natal?
Mais do que guerras e catástrofes am¬bientais, o principal motivo para as migra¬ções populacionais - sejam do campo para a cidade, ou até para outros países - é abusca por melhores condições de vida. Da segunda metade do século XIX até o início do século XX, países da Europa - que hoje são ricos e figuram entre os destinos procurados por milhares de emigrantes brasileiros - não ofereciam boas perspectivas de vida para muitos de seus habitantes. Na época, a ex¬plosão demográfica, decorrente do aumento da taxa de natalidade e da expectativa de vida, associada às dificuldades causadas pelo avanço da industrialização, como a
concentração da renda e a substituição do trabalho artesanal, levou italianos, alemães, ingleses, espanhóis e outros povos a cruzar o Atlântico em busca de oportunidades. A iniciativa era incentivada por seus próprios governos, que estabeleciam as negociações com países do continente americano e as companhias de migração.
Japão em crise
Dominado pelos xóguns (chefe militar e político) da família Tokugawa durante 265 anos, o Japão manteve-se isolado até me¬ados do século XIX. A pressão ocidental pela abertura dos portos cresce a ponto de navios norte-americanos apontarem seus canhões em direção à baía de Edo (atual Tóquio), em 1854, levando o governo a iniciar gestões para a abertura do país ao comércio mundial. A crise que se segue leva ao fim do xogunato e dá início à Res¬tauração Meiji (1868-1912).
O país transformava-se com a moder¬nização económica que encerrou o modo de produção feudal. As medidas adotadas visavam a colocar o Japão no patamar das nações ocidentais industrializadas, que nessa ocasião acirravam a disputa por colônias na Ásia e na África. Houve melhoria nas condições de saúde da população, com a redução dos índices de mortalidade, e foi universalizado o acesso à educação básica. No entanto, o novo sistema também causou a concentração da renda e daposse da terra, deixando à margem do processo produtivo grande parte da população camponesa.
Essa crise estrutural foi aprofundada por uma medida legislativa que incluiu no novo Código Civil a primogenitura - sistema de herança que destina todos os bens da família ao primogénito (filho mais velho), obri¬gando os irmãos a buscar outras formas de sustento. Muitos trocaram o campo pelas cidades, que, subitamente inchadas, não conseguiam acolhê-los. A emigração em massa surgia como uma alternativa, com o aval do governo japonês. Premidos pelas di¬ficuldades eestimulados pela propaganda de companhias de migração aserviço de países com falta de mão-de-obra, muitos japoneses tomaram a difícil decisão de emigrar.
Para a maior parte deles, os Estados Uni¬dos apareciam como o destino preferencial. Calcula-se que 160 mil japoneses tenham entrado nos EUA entre 1908 e 1924 (quando o país proibiu a imigração nipônica).

Falta de mão-de-obra

Ao mesmo tempo em que as nações eu¬ropeias desenvolvidas conviviam com a explosão demográfica e o excesso de mão-de-obra, na segunda metade do século XIX, as nações do continente americano queriam atrair imigrantes para qualificar sua for¬ça de trabalho no contexto de um projeto nacional. A ideia do europeu corno agente da modernidade e da civilização esteve no centro da decisão do Brasil de incentivar a imigração desde o início do período impe¬rial, a partir da independência, em 1822.
Do território alemão foram trazidos, em 1824, os colonos que fundaram São Leo¬poldo, no Rio Grande do Sul. Nas décadas seguintes, outras colónias alemãs se insta¬laram no estado e em Santa Catarina. Os primeiros lotes foram doados pelo governo imperial, mas esse modelo mudou após a promulgação da Lei de Terras (1850), e os colonos passaram a comprar os lotes.
A partir da década de 1870, teve início a imigração italiana, que se dividiu entre o Sul e o Sudeste. O grande fluxo dirigiu-se às fazendas de café paulistas, enquanto uma parte optou pelas colónias rurais no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Com os
alemães, esses italianos foram responsáveis pelo desenvolvimento de uma economia regional diferenciada, baseada na pequena propriedade familiar.
A imigração para o Sudeste teve como objetivo primordial suprir a carência de mão-de-obra nas lavouras de café após a proibição do tráfico negreiro, em 1850 (Lei Eusébio de Queirós). O Sudeste se bene¬ficiava do comércio interno dos escravos disponíveis, em razão da decadência das culturas de cana-de-açúcar e algodão no Nordeste, rnas isso não bastava para atender à demanda, e, embreve, eles estariam livres. Em 1888, acaba a escravidão. Como café em expansão, o governo paulista e a elite cafei¬cultora investiram no projeto imigrantista, criando, em 1886, a Sociedade Promotora da Imigração, que subsidiava passagens, garantia alojamentos e colocava os imigran¬tes nas fazendas. Em nove anos, a entidade trouxe 270 mil imigrantes, a maior parte da Itália. A seguir, esse papel foi assumido pela Secretaria de Agricultura.

Kasato Maru

Marco da imigração japonesa, achegada do Kasato Maru no porto de Santos, em 18 de junho de 1908, com 781 imigrantes, deu continuidade ao esforço brasileiro de atrair mão-de-obra estrangeira para a cultura ca-feeira. Nos 40 anos anteriores, o país havia recebido 2,3 milhões de imigrantes europeus - sobretudo italianos, espanhóis, alemães, russos e, como desde a época colonial, por¬tugueses. Parte considerável jáhavia trocado as fazendas pelas cidades, onde se iniciava o processo de industrialização, e faltavam braços na lavoura. As negociações para a vinda de japoneses tinham sido iniciadas anos antes, com a assinatura do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre o Brasil e o Japão, em 1895. Representando o governo japonês, Ryu Mizuno, presidente da Companhia Imperial de Imigração, havia firmado, em 1907, o acordo de imigração com o governo de São Paulo, após visitar algumas fazendas e observar as condições de trabalho.
O confronto entre a propaganda das companhias de migração, que prometia enriquecimento fácil, e a dura realidade nos trópicos não tardou. Da produtividade dos cafezais às condições de alojamento em antigas senzalas, nada correspondia às expectativas dos recém-chegados. O que os imigrantes recebiam pelo árduo trabalho era insuficiente para ressarcir o gasto com as passagens e a conta do armazémda fazenda, nos quais compravam comida e itens básicos de sobrevivência. Na ausência de perspectivas, muitas famílias fugiam. Em meados de 1909, apenas 191 imigrantes permaneciam nas propriedades para as quais haviam sido levados. Muitos haviam ido para outras fazendas, para cidades e até para países vizinhos, como a Argentina.
Mas a onda imigratória não foi interrom¬pida, pois atendia aos interesses dos dois países. O sistema de alocação de imigrantes como mao-de-obra assalariada nas fazendas de café conviveu com outros contratos de imigração, como o sistema de parceria e a criação de colónias de pequenos proprie¬tários agrícolas. Para esse fim, terras do Estado e do governo federal ou grandes áreas compradas por empresas de imigra-
ção foram colocadas à venda em pequenos lotes aos imigrantes logo depois da chegada ou aos que já haviam cumprido seus contra¬tos iniciais. Em 1911, é criada pelo governo federal a Colónia Monções, perto da estação Cerqueira César da linha férrea Sorocabana. Nesse empreendimento, registram-se os primeiros lotes de terra adquiridos por famílias japonesas. Em 1912, em Iguape, são assentadas 30 famílias japonesas em terras doadas pelo governo paulista, nas quais se desenvolveu a plantação de banana e chá. Em direção ao interior paulista, a instalação das colónias japonesas seguiu o traçado das estradas de ferro Noroeste do Brasil, Mogiana e Sorocabana.
A presença nipônica alcançou tam¬bém Mato Grosso do Sul e o norte do Paraná, onde, no fim da década de 1920, foram instalados núcleos colonizadores pela Companhia de Terras do Norte do Paraná, de capital inglês. A venda de pe¬quenos lotes a trabalhadores imigrantes de diversas nacionalidades deu origem a cidades como Arapongas e Londrina, que ganhou destaque com o filme Gaijin 2, da cineasta Tizuka Yamazaki, no qual conta a história de seus antepassados.

Educação e vida comunitária

O crescimento da imigração japonesa, que em 1914 já representava em torno de 10 mil pessoas, foi acompanhado da implantação de escolas e centros comunitários nos quais a língua e as tradições nipônicas eram viven-ciadas. Os planos de retornar ao Japão, mesmo adiados diante das dificuldades, foram mantidos por grande parte dos primeiros imigrantes. Em razão disso, valorizavam, o aprendizado da língua e da cultura natais e preparavam os filhos para o retorno à pátria. Em 1915 é fundada em São Paulo a primeira escola japonesa no Brasil. Foram criados nessa época os primeiros jornais em língua japonesa. Sua circulação contínua entre membros da comunidade japonesa no Brasil evidencia o crescimento da colónia e seu grau de acesso à leitura
Mas também havia imigrantes dispostos a fincar raízes no Brasil, contando para isso com a formação escolar. Em 1918 foram diplomadas as duas primeiras professoras saídas da comunidade, as irmãs Kumabe, pela Escola Normal do Rio de Janeiro. Em 1923, na Escola de Odontologia de Pindamonhangaba, formou-se o primeiro dentista de origem japonesa.
Período Vargas

Tão logo assume o poder, em 1930, Getú-lio Vargas limita a imigração para o Brasil e aprova legislação que protege o mercado de trabalho para os brasileiros, que de¬veriam ocupar dois terços das vagas em qualquer empresa. Em 1934 impõe mais uma restrição: a lei de cotas, que limitava a imigração a 2% do fluxo de entrada de cada nacionalidade nos 50 anos anteriores. A medida atingia mais duramente os povos de imigração recente, corno os japoneses.
Com a instalação do Estado Novo, em 1937, a linha nacionalista de Vargas foi aprofundada, atingindo as colónias de imigrantes: no ano seguinte são fechadas as escolas para o ensino de línguas estrangeiras e outras asso¬ciações de imigrantes. Simultaneamente, o governo lança a Campanha de Nacionaliza¬ção do Ensino Primário, dirigida às escolas de imigrantes, com o objetivo de difundir a língua e a cultura brasileiras, ao mesmo tempo em que proibia o uso público e ins¬titucional dos idiomas estrangeiros. Apartir de então, tornou-se obrigatório nas escolas de imigrantes o ensino em português e do português, assim como de conhecimentos de literatura e de história do Brasil.
A entrada formal do Brasil na II Guerra Mundial, ao lado dos Aliados, intensifi¬cou a censura e a repressão política aos imigrantes, particularmente japoneses, italianos e alemães. Foi proibida a circu¬lação de jornais em língua estrangeira, instituída a censura postal e os Correios interromperam os serviços entre o Brasil e o Japão. Até o fim da guerra, esses imi¬grantes enfrentariam enormes restrições, em especial a população urbana e as co¬lónias no litoral. Muitas famílias tiveram os laços rompidos com os parentes no Japão, os bens confiscados e chegaram a ser enviadas a campos de detenção.
Nem mesmo o futebol foi poupado da repressão aos imigrantes. Agremiações mais populares da época - Corinthians e Palestra Itália - foram alvo do projeto de nacionalização, em 1942. Os dois times forarn obrigados a retirar de suas diretorias os vários membros imigrantes e passaram. a ter as reuniões acompanhadas pelo Departamento de Ordem Política e Social (Deops). O Palestra tornou-se a Sociedade Esportiva Palmeiras e teve de restringir suas cores-símbolo ao verde e branco, re¬tirando o vermelho do trio de cores que o identificava com a Itália.
A notícia do fim da guerra, em 1945, e da vitória dos Aliados foi recebida com alívio e alegria no Brasil. Com a assinatura do tratado de paz entre o Brasil e o Japão, em 1952, a imigração, que havia sido in¬terrompida por quase uma década, ganha novo impulso. Desta vez, muitos japoneses vinham para as fazendas de conterrâneos ou para radicar-se nas cidades. O fortale¬cimento da comunidade japonesa em São Paulo dinamizou as atividades culturais e esportivas, com a ampliação de espaços para a prática de ténis de mesa, futebol de salão, beisebol e outros esportes.
O último navio a trazer imigrantes japone¬ses aportou no Brasil em 1973, com 285 passageiros. Hoje, somando-se os descendentes, a comunidade japonesa no país é estimada em quase 2 milhões de pessoas.
Rumo ao mundo rico

Desde o início do século XX, o panora¬ma mundial das migrações populacionais sofreu grandes modificações. A razão pri¬mordial para os deslocamentos humanos continua a mesma: a busca por melhores condições de vida. Com essa esperança, muitos descendentes de terceira ou quarta geração de imigrantes do início do século trilham o caminho de volta para o país de seus antepassados. Mas se há um século o movimento migratório era impulsionado pela política oficial de vários países - tan¬to dos quais saíam os migrantes quanto dos que os recebiam -, hoje é movido basicamente por recursos individuais, o que leva os emigrantes a enfrentar gran¬de dificuldade para entrar e permanecer nos países desenvolvidos, atualmente os destinos mais procurados.
A questão é estrutural. Nas últimas dé¬cadas, boa parte dos países ricos - Estados Unidos, Canadá, Europa Ocidental, Japão e Austrália - viu uma queda em seus ín¬dices de natalidade, o envelhecimento da população e uma elevação do nível educa¬cional. Com isso, começaram a faltar tra¬balhadores para os serviços mais pesados ou mais mal remunerados, desprezados pela população nativa. Essa situação levou à migração em massa de trabalhadores de países pobres e em desenvolvimento da África, Ásia e América Latina em direção aos países desenvolvidos, no que hoje compõem cerca de 60% do fluxo migra¬tório global. No imediato pós-guerra, e até o início dos anos 1980, muitos desses governos inclusive estimularam a imigra¬ção de países pobres.
No entanto, com o modelo neoliberal já implantado e a economia cada vez mais globalizada e competitiva, o desemprego co¬meçou a crescer também nas nações ricas. A população nativa passou a interessar-se pelas ocupações de baixa qualificação e de menor salário. Os imigrantes começaram, então, a ser vistos como usurpadores de seus empregos e direitos. Os governos, por sua vez, aumentaram as políticas restritivas e o controle das fronteiras, chegando a construir muros fortemente vigiados, como ocorre na fronteira entre Estados Unidos e México. Pressionados pela pobreza, milha¬res de imigrantes passaram a desafiar essas barreiras, submetendo-se muitas vezes às redes de tráfico ilegal de pessoas.
Os países desenvolvidos deixam as portas abertas, porém, para os trabalha¬dores altamente qualificados, sempre requisitados por empresas de ponta, e cuja formação -vários anos de estudo - acaba custando caro ao Estado. É a "fuga de cérebros" dos países em de¬senvolvimento, onde esses profissionais deixam de contribuir para o progresso científico e tecnológico. A contrapar¬tida importante é que muitos desses imigrantes enviam à família, no país de origem, uma parcela do que ganham com seu trabalho, aumentando os rendimen¬tos das nações mais pobres. Em 2006, as remessas de dólares de imigrantes para o país natal somaram 276 bilhões de dólares, sendo 206 bilhões para as nações em desenvolvimento, segundo estimativas do Banco Mundial.
Decasséguis, o retorno

Nesse fluxo migratório global paraos paí¬ses ricos, insere-se o fenómeno decasségui. Em meados dos anos 1980, brasileiros des¬cendentes de japoneses iniciaram ajornada de volta aterra dos ancestrais, em busca de trabalho e renda. Interessado na captação dessa mão-de-obraparaosetor industriado Japão passou a conceder vistos de trabalho com base em laços de parentesco. Ao mesmo tempo, reprimia a imigração ilegal.
Pela lei japonesa de 1990, os nisseis (filhos de imigrantes japoneses) podem permanecer três anos, e os sanseis (terceira geração) recebem visto por um ano. Até hoje, os vistos são renovados sem entraves. Mas, ao contrário de países como Itália e Portugal, cujos descendentes de emigrantes têm direito à cidadania, o Japão só os aceita como mão-de-obra, sem cidadania.
Essa condição temporária não impediu que o número de imigrantes brasileiros no Japão crescesse vertiginosamente, alcançan¬do 312.979 pessoas em 2006. Esse contingen¬te constitui a terceira maior comunidade de estrangeiros no Japão, atrás de coreanos e chineses. Em relação aos brasileiros no ex¬terior, os decasséguis representam também o terceiro maior grupo, ultrapassado apenas pelos que vivem nos EUA e no Paraguai.
Entre as razoes para a manutenção desse fluxo migratório, mesmo durante o período de recessão na economia japonesa, apartir de 1993, está a flexibilidade dessa mão-de-obra, tanto em relação aos contratos, que permitem a demissão a qualquer mo¬mento, quanto à sua mobilidade territorial (mudam-se com facilidade para onde há trabalho, ao contrário dos próprios japo¬neses). Além disso, há evidências de que os japoneses não demonstram interesse por certos trabalhos braçais ou subalternos.
Faz pouco mais de 20 anos que começou o fluxo de brasileiros ao Japão, mas já deu tempo para alguns autores os incluírem em suas obras. E o caso da escritora Natsuo Kirino, que, com Out, de 1997, ganhou o grande prémio literário j aponês na categoria misté¬rio. A protagonista da história é operária em uma fábrica na qual trabalha o decasségui brasileiro Roberto Kazuo, apresentado as¬sim: "Ele decidiu então trabalhar no Japão. Em dois anos,poderia comprar um carro e, se ficasse mais tempo, quem sabe teria dinheiro suficiente para adquirir uma casa - e ainda conheceria a terra natal de seupai".
Cronologia
1867 O último xógum Tokugawa renuncia. No ano seguinte, o imperador assume o poder e inicia a Era Meiji, de intensa modernização. 500 japoneses emigram ilegalmente para o Havaí. Três anos depois, acabam os feudos no Japão.
Í875 Início da imigração dos italianos para o Brasil (serão a maior colónia de imigrantes). Eir 1885, o Japão, pressionado pelo desemprego, assina seus primeiros acordos migratórios: 943 japoneses vão oficialmente para o Havaí.
1888 Fim da escravidão no Brasil, seguida pela proclamação da República (em 1889). A necessidade de substituir a mão-de-obra escrava será o impulso decisivo para incentivar a política oficial de atrair a imigração ao país.
1895 Inicio das relações diplomáticas entre Brasil e Japão. Em 1899, os 790 japoneses que chegam ao Peru são os primeiros na América do Sul. Em 1907, os EUA restringem a entrada de japoneses. O Canadá faz o mesmo um ano depois.
1908 Em 18 de junho, no Kasato Maru, chegam os primeiros imigrantes japoneses ao Brasil, para trabalhar em fazendas de café. Dois anos antes, São Paulo já tinha uma loja de produtos japoneses, as Casas Fujisaki.
1914 Os japoneses em São Paulo passam dos 10 mil. O estado pára de financiar a vinda de imigrantes. Estoura a l Guerra Mundial (até 1918} e a imigração diminui. Em 1915 e aberta em São Paulo a primeira escola japonesa.
1924 Os EUA proíbem a imigração de asiáticos. O governo japonês passa a financiar a emigração para o Brasil. A partir de então, o fluxo de imigrantes começa a crescer, somando mais de 50 mil japoneses até o fim da década.
1929 Quebra da Bolsa de Nova York, atingindo duramente a economia mundial. O preço do café despenca e coloca o Brasil em crise económica. O Japão cria um ministério para promover a emigração.
1931 Com uma política expansionista, o Japão invsde a Mancharia (nordeste da China). A vinda de japoneses para o Brasil chega ao auge em 1933, com 24.494 imigrantes. A partir daí, o país começa a restringira entrada de imigrantes.
1937 Getúlio Vargas inicia o Estado Novo. Em seguida, aumentam as restrições a imigrantes. Mais de 200 escolas japonesas são fechadas. Em 1939 começa a II Guerra Mundial. Alemanha, Itália e Japão aliam-se e formam o Eixo.
1941 Jornais em língua estrangeira, que eram comuns entre os imigrantes, são proibidos no Brasil. Os EUA entram na guerra a partir de ataque japonês. Em 1942, o Brasil corta relações com o Eixo e imigrantes sofrem perseguições.
1945 Os Estados Unidos soltam as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasakí, matando 170 mil pessoas. Poucos dias depois, o Japão se rende, e acaba a II Guerra. O território japonês fica sob ocupação militar norte-ame ri cana.
1948 Yukishigue Tamura é eleito em São Paulo: é o primeiro vereador da comunidade japonesa no Brasil. Em 1949, Brasil e Japão retomam as relações comerciais. Na Guerra da Coreia (1950 31953), tropas dos EUA se abastecem no Japão.
Í952 Os Estados Unidos encerram a ocupação militar e o Japão recupera sua independência, com uma nova Constituição (adotada em 1947). Brasil e Japão assinam um tratado de paz e, no ano seguinte, recomeça a imigração japonesa.
954 Início do crescimento económico acelerado conhecido como "milagre japonês". A colónia japonesa de São Paulo, em 19S5, elege Yukishigue Taiuura o primeiro deputado federal de ascendência oriental no Brasil.
1956 O Japão é admitido na ONU. Nos anos seguintes, estreitam-se os laços económicos entre Brasil e Japão: em 1958, os dois se associam para construir a siderúrgica Usiminas; em 1961, começam os voos diretos Brasil-Japão.
Í967 O príncipe Akihito, atual imperador, faz sua primeira visita ao Brasil. Em 1973 chega ao pais o último navio de imigrantes japoneses. Com o primeiro choque do petróleo, o preço dos combustíveis dispara no mundo todo.
Í97S Com a alta dos combustíveis, o Japão toma da Alemanha Ocidental o posto de maior exportador mundial de carros, com seus modelos compactos. Os investimentos japoneses no Brasil chegam, em 1976, a l bilhão de dólares.
1985 Os descendentes dos imigrantes começam a migrar para o Japão atrás de trabalho: são os decasséguis. Em 1989, com o boom económico japonês, o índice da Bolsa de Valores de Tóquio atinge o recorde histórico: 39 mil pontos.
1990 O Japão libera vistos de trabalho para descendentes da 1a e 2a gerações de migrantes, nisseis e sanseis. Assim, eles podem imigrar legalmente, mesmo que o visto seja temporário. Os descendentes não têm cidadania japonesa.
1997 Grave crise financeira atinge a economia asiática e, depois, a Federação Russa (1998). Em 2001, oJapão enfrenta uma recessão, mas continua a imigração de decasséguis. Em 2003, a economia japonesa começa a sair da crise.
2008 Centenário da imigração japonesa no Brasil. Após 100 anos de migração, a comunidade japonesa no Brasil chega a quase 2 milhões de pessoas. O príncipe Naruhito, sucessor do imperador, visita o Brasil.
Vocabulãrio:
MIGRANTE - Pessoa que muda de região ou país.

EMIGRANTE - Pessoa que parte de sua região ou país natal.

IMIGRANTE - Pessoa que chega, vinda de outra região ou país.

ISSEI - Japonês que imigra para as Américas.

NISSEI - Filho de imigrantes japoneses nascido nas Américas.
SANSEI - Neto de imigrantes japoneses nascido nas Américas.
YONSEI - Bisneto de imigrantes japone¬ses nascido nas Américas.
DECASSÉGUI - Pessoa que se fixa tempo¬rariamente nojapão para trabalhar.

Para saber mais adquira:
Atualidades vestibular 2009 – editora Abril

Êxodo rural

O aumento da produtividade no cam¬po, que dobrou entre 1975 e 2005, está diretamente relacionado à mecaniza¬ção das atividades agrícolas. Cada vez mais os produtores utilizam sofistica¬dos equipamentos para fazer as tarefas de plantio e colheita, antes executadas por mão de obra humana intensiva. Com isso, cai o emprego no campo, afe¬tando antigos empregados moradores das fazendas, que têm de ir embora, e mesmo os sitiantes, que não conseguem manter a rentabilidade de sua cultura ao competir com as grandes proprie¬dades. Como as cidades oferecem mais oportunidades de emprego, acabam atraindo os lavradores, que migram do setor rural para as áreas urbanas.
Esse fenômeno, conhecido como êxodo rural, não é novo na sociedade brasileira. Ele tem suas raízes na década de 1930. Naquela época, o Brasil era essencialmente agrícola e sofreu forte abalo em sua economia com a crise de 1929. Como a principal receita brasileira estava na ex¬portação de café, o país viu sua principal receita se esvair depois que os Estados Unidos, quebrados, e outros países para¬ram de importar o produto. Ao assumir a Presidência da República, em 1930, Getúlio Vargas iniciou uma série de medidas para dinamizar a economia do país e investiu na industrialização, com o objetivo de re¬duzir a dependência externa, produzindo aqui o que antes era importado. Com isso, a sociedade brasileira foi se transformando de rural e agrária para urbana e industrial. E, como o centro dinâmico da economia se transferiu do setor rural para as cidades, as áreas urbanas passaram a concentrar as melhores oportunidades de trabalho e a atrair a mão de obra do campo.
O êxodo rural se intensificou nas déca¬das seguintes, reforçado principalmente pela concentração de latifúndios nas mãos de poucos produtores. Apesar de a questão remontar às capitanias here¬ditárias, no século XVI, o problema se mantém atual. As propriedades rurais com área superior a mil hectares representam apenas 1% dos estabeleci¬mentos, mas ocupam cerca de 45% da área total com potencial agropecuário. Por outro lado, aproximadamente 49% das propriedades têm até 10 hectares e 88,8%, até 100 hectares, ocupando apenas 19,9% da área total dos estabele¬cimentos rurais. Essa estrutura fundiária favorável aos latifúndios provoca êxodo rural porque limita a disponibilidade de terras para os pequenos trabalhadores rurais. Sem oportunidades no campo, eles acabam sendo atraídos para os cen¬tros urbanos. Ao estimularem o êxodo rural, as grandes propriedades, assim como a mecanização agrícola, desenca¬deiam graves problemas sociais, com o crescimento desordenado das grandes cidades.

Para saber mais leia: Atualidades vestibular – editora Abril